Tô chegando: uma reflexão sobre a saudades

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Reflexão sobre as saudades

De malas prontas para embarcar para o Brasil, divido um pouquinho desse momento de correria, e muitas saudades. Um post em tom bem pessoal que fala um pouquinho do dilema entre morar fora e as saudades da família.

Tô chegando: uma reflexão sobre a saudades

“Próxima parada: segunda-feira”, comentou um senhorzinho simpático sentado no mesmo vagão que eu do trem, “ele com certeza já ouviu essa piadinha antes e agora a repete com cara de garoto travesso”, pensei com uma pitada marrenta de humor matinal, e em seguida, repeti mentalmente: “segunda-feira”, mas bem que poderia ser quinta, né?

Caltrain

Minhas manhãs de segunda: de bicicleta esperando o trem

Segunda feira é pra mim o dia mais duro da semana, a manhã começa cedo com uma pedalada de 30 minutos, ainda no escuro porque o horário de verão tem dessas chatices e com direito aquele vento que gela até as tripas. Chegando no trem a coisa melhora um pouco, sou uma das primeiras a subir e desço na última estação – San Francisco – então tenho tempo de sobra de escrever um post para vocês e acompanhar o vai e vem de pessoas cansadas (é segunda feira, e pegar o trem das 7 não é para qualquer um!) Mas hoje estou pensativa, pensando na quinta feira e na nossa viagem para o Brasil. Posso apertar o botão de forward e acordar na quinta-feira? Diz que sim, vai?!

Já fazem quase 5 anos que moramos na Califórnia, e gosto pra caramba da vidinha que construímos aqui. Amo a Bay Area (região de San Francisco) e a possibilidade de passar da neve para a praia em questão de 2 horas. Amo o vermelhidão infinita da Golden Gate, as curvas da Highway 1, as cachoeiras do Yosemite, os lagos gelados de Tahoe e não me canso de revisitá-los. E falando em mimos, me acostumei a andar com a janela do carro aberta, usar o laptop no trem, e guardar o telefone no bolso. Sim, sinto saudades dos sabores Brasileiros, mas sou recompensada (e até mimada se você quer saber) com sabores do mundo todo: japonês, tailandês, indiano, italiano, francês, comida latina e até comida africana. Mas pro quebra-cabeça da vida ficar completo, falta uma pecinha chave: a família.

Sempre fui meio cachorro do mato, um tanto desapegada, um tanto desgarrada; acreditava que a melhor forma de conviver com a saudades (não tente enfrentá-la porque ela ganha!) era ignorando-a, pensando nela o mínimo possível, como se ela não existisse. E sabe que por anos e anos essa técnica funcionou? E funcionou bem. Até que ano passado, tive uma recaída feroz: engravidei. E foi me preparando para ser mãe que me dei conta do quanto a família faz falta, entendi que reprimir a saudades só faz aumentá-la e que no fundo, no fundo, eu queria estar um pouco mais perto.

E desde então tenho tentado estar mais próxima, mais presente. Uso e abuso do FaceTime, mando zilhões de fotos do bebê, e tento, a medida do possível, participar dos momentos deles (é difícil ser incluída quando se está tão longe, viu? Rs) Mas eu dou trabalho, ligo para um, ligo pro outro e de quando em quando mando até cartinha de papel. Sim, a Califórnia é um pouco mais longe do Brasil do que gostaríamos, e infelizmente não dá para ir tantas vezes para o Brasil quanto gostaríamos, mas tentaremos driblar as saudades com um pouco de criatividade e muita tecnologia.

E você não sente falta dos amigos? Sinto, mas já senti mais. Depois de 5 anos você percebe que essa coisa de amizade independe de geografia, e que os amigos de verdade dão um jeito de participar da sua vida (e você faz o mesmo por eles), seja de forma real, ou virtual independentemente do quanto tempo vocês não se veem. A distância me afastou de muita gente querida, e me aproximou de amigos que não eram tão próximos. E sim, os amigos são parte indispensável da nossa ida ao Brasil e não vejo a hora de apresentar o baby Tom para tantos tios queridos!

De volta a minha semana, to aqui contando as horas para embarcar, um pouco receosa para enfrentar as 14 horas de viagem (comprei um vôo bom, geralmente leva mais) com um bebê de 9 meses (sim, esse é assunto para um outro post). Mas feliz de verdade porque to indo encontrar essa família que amo tanto! E quanto quinta-feira não chega, terei que me contentar com a próxima parada: segunda-feira, quer dizer, San Francisco.

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mari vidigal

Viajante incansável, daquele tipo que no meio de uma viagem já está pensando na próxima, na próxima e na próxima. Apaixonada por fotografia, natureza e vinhos

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