Índia: O templo do rato em Bikaner

Conheça o Karni Mata, conhecido como templo do rato, em Bikaner, Índia. Saiba como é a visita ao templo, como chegar e detalhes práticos que te ajudarão a planejar a sua viagem

Templo do rato? Que nojo – exclamei com convicção jurando que não colocaria meus pés, descalços, no tal do recinto sagrado de jeito nenhum. Considerar um rato sagrado, é estranho. Acumular 2,000 ratos sagrados em um único recinto é no mínimo loucura, pensei enquanto buscava opiniões de outros viajantes Brasileiros e gringos sobre a visita ao templo. Embora o nojo fosse o mais forte dos meus sentimentos em relação ao tal do templo, não posso negar que estava curiosa para entender um pouco mais sobre o costume e descobrir porque raios “santificar” um rato. Não poderia ser algo mais bonitinho? Gatos? Chinchilas? Até um templo de esquilos seria fofo, pensei.

Li diversos relatos divertidos de viajantes enojados e até curiosos com o templo. A Carol do Mochilão trips que havia acabado de voltar de seu mochilão de volta ao mundo, descreveu a experiência de forma interessante. Ainda assim, não havia me convencido em visitar o templo do rato, ou Karni Mata. Mas a cidade de Bikaner, onde fica o templo, já estava no meu roteiro.

Chegando na Índia a história mudou…

Não sei se foi a porrada cultural imediata das ruas de Délhi, a noite mal dormida no trem noturno, o simples fato de estar do outro lado do mundo e poder vivenciar algo BIZARRO, ou o fato de que a maior parte das pessoas do meu grupo iriam visitar o templo e que eu simplesmente “precisava” ir com elas. (Nessa hora ouvi o fantasma da minha falecida avó gritando: “Que nojo. Sua Maria vai com as outras, não é porque todo mundo se atira no abismo que você tem que ir para trás”. É vó, sucumbi aos encantos da massa, e caí de paraquedas numa das excursões mais estranhas que já me meti.) Tudo que sei é que dediquei a tarde do meu único dia em Bikaner para visitar o tal do templo… e não me arrependo. Rs

A preparação

Não, eu não estava preparada para ocupar o recinto sagrado de 2,000 roedores com a sola dos meu pés descalços. É proibido entrar no templo de sapatos, mas… de meia pode!

Assim peguei a minha meia mais grossa que não fizesse falta durante a viagem, e coloquei no pé. Essa meia foi jogada fora na saída do templo, e eu imediatamente desinfetei meu pé com lencinhos umedecidos em álcool. Exagero? Talvez, mas ficar doente não fazia parte do meu itinerário de 3 meses de viagem.

Como chegar ao Karni Mata Temple?

Sem perrengue:

O Karni Mata fica há 32 Km do centro de Bikaner.

Para chegar ao templo do Rato sem grandes perrengues, recomendo que você negocie a saída de Bikaner com um tuktuk ou jipe. Jipe é mais rápido, porém tuk tuk é mais barato. Dividindo em 4 pessoas gastamos 4 ou 5 dólares por pessoa (cerca de 15-20 reais). O tuktuk ou jipe te espera na porta e te leva de volta a Bikaner.

Do jeito Roots:

A Carol do Mochilão trips fez o seguinte percurso:

Ônibus local entre Bikaner e Deshnoke (60 rúpias – cerca de 2 reais): cerca de 1 hora – saídas da rodoviária de Bikaner. O ônibus te deixará na estrada e você terá que caminhar cerca de 1 km até o templo.

Quanto custa a entrada no Templo do Rato?

A entrada é grátis, mas cobra-se uma taxa fotográfica de 30 rúpias (+-1 real) por pessoa.

A experiência: como é visitar o templo do Rato em Bikaner?

Não consigo me lembrar se fizemos o trajeto entre Bikaner e o Karni Mata, templo do rato, de Jipe ou de tuktuk, mas lembro da nossa tensão durante o caminho. A única pessoa realmente empolgada com a experiência era uma Suíça estudante de veterinária completamente apaixonada por todos os tipos de animais, todos os outros estávamos indo por pura curiosidade e com um nojo, maior do que a curiosidade. “Se o rato subir no meu pé, eu grito” dizia a Claire, uma Irlandesa figura e que minutos depois se mostraria a mais medrosa do grupo. Os ratos que raramente se aproximam de alguém aparentemente gostaram da Claire e tentaram um contato mais íntimo com ela, que se segurou, mas acabou respondendo aos gritos e quase sendo expulsa. O templo é local de oração e adoração, e assim grandes euforias, gritos ou risadas não são bem vindos, mesmo.

Veja também: O que fazer em Bikaner? Dicas para aproveitar o melhor da cidade

Uns 40 minutos de estrada depois – com direito a vacas, cabritos, camelos, buzinas e todas as maluquices que a Índia te proporciona, chegamos a porta do templo, com paredes rosadas e uma porta imponente com relevos e detalhes. Repare que do lado de fora do templo, o único rato no pedaço era o “rato com asas” mais conhecido como pombo. E eu que não sabia que essa seria uma experiência 2×1.

Templo do Rato - Bikaner

Fachada do templo Karni Mata em Bikaner

Templo do Rato - Bikaner

O leão, simbolo da nobreza demarcava as duas portas de entrada do templo.

Reparem que a janela do templo tem pequenos ratinhos esculpidos.

Templo do Rato - Bikaner

Janela do templo Karni Mata em Bikaner

O templo fica numa grande praça com direito a lojinhas que vendem oferendas – variadas iguarias para oferecer aos ratos e aos outros deuses do templo.

Templo do Rato - Bikaner

Vendinha do lado de fora do templo

Hora de tirar os sapatos

Antes de entrar, deixei meus sapatos numa espécie de “guarda sapatos” (devo ter pago umas 30 rúpias pelo serviço) e respirei fundo me preparando para sentir o fedor dos 2,000 roedores sagrados que visitaria a seguir.

Templo do Rato - Bikaner 7

E aí, será que eu encaro?

Entrando no templo do rato

E fui caminhando devagarinho até a parte de dentro do templo, que surpreendentemente estava MUITO mais limpo e muito menos fedido do que os relatos que eu havia lido. Como havia pouco cocô de rato espalhado pelo chão assumi que o templo havia acabado de ser limpo. E cá entre nós, melhor visitar um templo do rato sem pisar em cocô e sem sentir tantos odores. Perdi boa parte do nojo, mas ainda assim havia cocô (fresquinho, imagino eu) e rato pra caramba! Mantive distância dos roedores.

Templo do Rato - Bikaner

Parte de dentro do templo do Rato

E os ratos?

Antes de visitar o templo imaginava um mar sem fim de ratos e mais ratos dividindo um espaço semi fechado. E para a minha surpresa, os ratos estavam concentrados nos cantos do templo – e obviamente nas áreas com mais comida.

Templo do Rato - Bikaner

Uma das áreas com muita comida e muito rato

De quando em quando um rato mais atrevido resolvia passear pelo salão e tentava chegar mais perto das pessoas. Os indianos ficavam encantados com a experiência e tentando enlouquecidamente deixar o pé a mostra para que um rato passasse por cima (dizem que dá sorte!) e os gringos tentavam evitar contato e se esquivavam com medo.

Templo do Rato - Bikaner

Rato trapezista fazendo graça

Templo do Rato - Bikaner

Ratinho passeando

A alimentação dos ratos

Uma das áreas mais nojentas do templo é onde alimentam os ratos. Grandes bacias repletas de leite, onde os roedores se aglomeram e se deleitam com a regalia VIP. E o que tem de nojento nisso? Muitas pessoas se aproveitam do fato dos ratos estarem parados para encostar a mão neles (dá sorte) ou molhar os dedos no leite sagrado e colocar na boca. ECA!!!! O mesmo acontece com farelos de comida, dizem que comer restos do rato também dá uma sorte danada. Eca, eca, eca!

Templo do Rato - Bikaner

Templo do Rato – Bikaner: Ratos bebendo leite

Isso foi um pouco demais para meus padrões ocidentais, mas ainda assim não deixei de tirar uma foto e registrar “meu ato de coragem” (ou como diria minha vó: falta de juízo).

Templo do Rato - Bikaner

Foto com os ratos

Além do leite, os ratos ainda podem optar por baldes de água ou porções de comida “diferentes” oferecidas pelos visitantes.

Templo do Rato - Bikaner

Ratos bebendo água

Templo do Rato - Bikaner

Alimentação dos deuses. RS

Um corredor estreito leva a uma área do templo proibida aos estrangeiros, e foi nesse momento que um dos ratos chegou um pouco mais perto de mim do que eu gostaria. O coitado só queria passar e acabamos os dois nos assustando. Por sorte, ele correu para um lado e eu corri para o outro. Melhor assim.

Templo do Rato - Bikaner

Templo do Rato – Bikaner

Durante a visita, fiquei TÃO concentrada nos ratos, que esqueci de fotografar o templo, essa foi a única foto que tirei dos ornamentos internos: um dos telhados do templo. Vale falar que a área de oração não pode ser fotografada.

Templo do Rato - Bikaner

Uns 20 minutos depois de entrar, saí do templo ainda refletindo sobre o que havia feito e na loucura de venerar ratos. Foi muito menos nojento do que eu esperava, e bem engraçado. Mas cá entre nós, tá visto. Ainda que volte a Bikaner, essa é uma experiência que não tenho a menor vontade de repetir.

E valeu a pena?

Eu não iria a Bikaner – e nem recomendo que você vá até lá – somente para visitar o templo do rato, mas caso a cidade já esteja no seu roteiro, acho que vale sim. Afinal, em que outro lugar do mundo ratos são aclamados como deuses, recebem tratamento especial e até leite?

História & curiosidades sobre o templo

A adoração dos ratos na região de Bikaner tem mais de 600 anos e várias lendas que tentam explicar essa história. Uma das versões mais famosas diz que Karni Mata, reeincarnação do Deus Durga tentou ressuscitar o filho de um contador de histórias. Como ela não obteve sucesso prometeu que todos os contadores de histórias da casta Charan ressuscitariam como ratos. E após a vida de rato, estes membros renasceriam na casta Depavats, que é a casta de todos os membros da família de Karni Mata. Assim, cada um dos ratinhos do templo é um Deus em potencial e deve receber tratamento a altura. A manutenção e os cuidados do templo são feitos por membros da família dos Depavats e segundo a tradição, caso um dos ratos seja morto, ele deverá ser substituído por um rato de ouro ou prata.

E as doenças?

Em toda a história do templo não existe nenhum caso de contágio humano pelas doenças transmitidas por ratos, mas de tempos em tempos os ratos pegam doenças estomacais transmissíveis -entre eles- e uma porção deles acaba morrendo.

E pra quem quiser ler mais detalhes sobre a história do templo e curiosidades sobre os roedores, este artigo (em inglês) está espetacular.

Sorte e suas facetas mais bizarras

Uma das coisas que você vai perceber durante a sua viagem pela Índia é que muita coisa estranha, é sinal de sorte, ou usada para atrair a boa sorte. Assim no templo do rato caso um deles decida passar por cima do seu pé, isso é visto como boa sorte. Comer migalhas das comidas do rato é outro sinal de sorte e caso você consiga ver um dos 5 ou 6 ratos brancos que vivem entre os milhares de cinzentos. Isso também é sinal de sorte. Eu fiquei procurando um rato branquelo – que estava BEM escondido embaixo de um dos espaços cercados, de todos esses “atos” de boa sorte esse é o único que eu tive coragem de praticar. Rato no pé ou mastigar comida de rato: NEM PENSAR!

Alguém aí ficou curioso para visitar o templo do rato?

Alguém aí já foi ao templo e quer contar para nós o que achou?

Veja também:

Sobre a Índia:

Nova Delhi

Outras cidades da Índia

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mari vidigal
mari vidigal
Mari é editora do Ideias na Mala há 14 anos e mora na Califórnia. Já visitou dezenas de países e explorou boa parte dos Estados Unidos com seus filhos Tom e Caio. Sua paixão? Viajar com o motorhome Rocky e colecionar Springs na Flórida. Mari é conhecida pelos seus roteiros super completos dos principais destinos da Europa (sim! Tem roteiro de Paris, Madri, Londres, Portugal e Amsterdam) e pelo conteúdo mais completo da Califórnia, Flórida e Las Vegas entre os sites de viagem do Brasil. Em 2021 recebeu o prêmio IPW Travel Awards, um dos maiores prêmios de jornalismo de viagem, e em 2024 foi finalista do prêmio Europa de Comunicação.

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Comentários:

Não encontro para palavras para comentar esse artigo! =O
p.s. obrigada por compartilhar a experiência.

mari vidigal mari vidigal disse:

Obrigada pela visita Polly!
Beijos