Gorilas-da-montanha em Uganda: um sonho que virou realidade
Eu tinha 6 anos quando vi um gorila pela primeira vez — não ao vivo, mas nas páginas da National Geographic do meu pai. Trinta e dois anos depois, eu estava frente a frente com eles, no coração da floresta de Bwindi, em Uganda.

Um sonho frustrado e um convite inesperado
Meus planos para o Japão tinham acabado de ser cancelados quando recebi uma mensagem da Simone, uma amiga querida: “Você é a única pessoa no mundo que toparia fazer uma viagem comigo pra ver gorilas em Uganda.”
Sem nem perguntar o valor, respondi: QUERO SIM! Naquele momento, foi como se a Bia criança, com aquela National Geographic nas mãos, recheada de “macacos gigantes”, tivesse tomado o celular da minha mão e respondido no meu lugar.
O sonho nasceu nas páginas da National Geographic
Meu pai assinava a National Geographic quando eu era criança. Eu era apaixonada por animais e adorava folhear as revistas, tanto as novas quanto as antigas que ficavam no escritório de casa. Um dia, encontrei uma edição com “macacos gigantes” — nunca tinha visto nada parecido. Fiquei abismada.
Eu morava em Belém, no Pará. Era uma criança curiosa, acostumada com a natureza: cobra, tucano, arara, peixe-boi, macaco — nada disso era novidade pra mim. Íamos muito pro interior, e no início dos anos 90, o Pará ainda era um estado pouco desenvolvido. Era comum nas nossas viagens de carro ver animais nas estradas.
Mas aqueles macacos gigantes, eu nunca tinha visto. Eram os gorilas.
Ali também descobri quem foi Dian Fossey, a luta dela contra a caça e a realidade ameaçadora que cercava aqueles animais. Fiquei tão impressionada e monotemática, que meu pai alugou o filme Nas Montanhas dos Gorilas. Não lembro direito da história, mas lembro da tristeza que ficou. Nunca mais consegui ver o filme de novo.
E foi assim, entre páginas de revista e fita de vídeo, que nasceu o sonho. Mas logo entendi que não era pra mim. Aquilo era privilégio de gente rica. Ver gorilas livres na natureza custava muito dinheiro. Na época, o zoológico do Rio de Janeiro tinha gorilas e meu pai disse que quando fossemos ao Rio visitar nossa família ele me levaria para vê-lo. Nunca fui.

Onde é possível ver os gorilas-da-montanha?
Muita gente não sabe, mas só existem três lugares no mundo onde é possível ver gorilas-da-montanha vivendo livres na natureza: Uganda, Ruanda e a República Democrática do Congo (RDC).
Esses países compartilham uma região montanhosa coberta por florestas tropicais densas — as famosas Montanhas Virunga e na Floresta Impenetrável de Bwindi (Uganda), onde esses primatas vivem em pequenos grupos familiares.
A luta pela sobrevivência dos gorilas-da-montanha
Na época em que a Dian Fossey começou a estudar e proteger os gorilas, nos anos 70 e 80, havia apenas cerca de 200 indivíduos vivos. Eles estavam sendo dizimados pela caça, por conflitos armados e pela destruição de seu habitat.
Graças aos esforços de conservação, a estimativa mais recente é de 1.063 gorilas-da-montanha (espécie Gorilla beringei beringei) vivendo em liberdade, divididos entre essas duas grandes áreas de floresta. Ainda é um número pequeno, mas representa um avanço gigante na luta pela preservação.
Uganda ou Ruanda?
Quando a Simone me chamou pra ir ver os gorilas, a ideia já era Uganda. Eu até comentei sobre Ruanda — afinal, foi lá que a Dian Fossey viveu, no Parque Nacional dos Vulcões — mas bastou dar uma olhada nos preços pra entender: Uganda era a opção mais viável.
Ruanda: organização impecável e custo alto
Ruanda foi o primeiro país a estruturar o turismo de gorilas, ainda na década de 1980. Hoje, o país é referência em ecoturismo sustentável. Eles têm um controle rigoroso da visitação, infraestrutura de alto padrão, e boa parte da renda vai diretamente pra conservação e apoio das comunidades locais.
Tudo isso é incrível, mas custa caro. A permissão para o trekking com os gorilas em Ruanda sai por U$$1500 dólares (valor de 2025). Isso sem incluir hospedagem, transporte ou qualquer outro serviço. É o preço apenas para o dia do encontro: uma subida com guia, dois rangers, uma hora com os gorilas, certificado e tchau.
Com o dólar quase a R$6, só essa permissão já me deu vertigem.

Uganda: menos glamour, mesma emoção
Uganda também começou com o turismo de gorilas nos anos 80, mas de forma mais tímida. O país demorou um pouco mais pra entender o potencial turístico da espécie e ainda está em processo de melhorar a infraestrutura para o turista
A Floresta Impenetrável de Bwindi, onde fiz meu trekking, foi demarcada há décadas, mas só mais tarde passou a ser protegida com mais rigor. Por causa disso, Uganda ainda não possui todos os selos e certificações internacionais de ecoturismo — e também não tem uma grande oferta de hotéis 4 e 5 estrelas padrão internacional. Isso deixa tudo mais acessível e, na minha opinião, também um pouco mais autêntico.
A permissão para o trekking com os gorilas em Uganda custa U$$800 dólares, quase metade do preço de Ruanda. E a experiência é igualmente mágica: florestas densas, guias preparados, encontros próximos com os gorilas e a mesma chance (99%) de vê-los. Segundo o site oficial, até hoje, só uma pessoa saiu de lá sem ver nenhum gorila. Um azar difícil de acontecer.
A pérola da África
A fama de Uganda como “a pérola da África” vem de Winston Churchill e a descrição não era exagero. O país prometia muito mais do que apenas o encontro com os gorilas. E eu, que nunca tinha pisado no continente, estava empolgada.

Já que eu ia realizar um sonho aparentemente impossível, por que não aproveitar pra realizar outros? Uganda tem uma natureza vibrante, cheia de contrastes: florestas tropicais, savanas abertas, lagos, montanhas, rios, vida selvagem em abundância. Era a oportunidade perfeita pra fazer um safári e, quem sabe, finalmente ver leões de pertinho — outro sonho antigo.
Mas o que mais me atraiu, além da biodiversidade, foi o fato de Uganda ainda não ser um destino super turístico. Ao contrário de outros destinos africanos mais badalados, Uganda ainda recebe poucos visitantes estrangeiros. Isso me dava uma chance rara de viver uma experiência mais crua, mais verdadeira. Sentir o país sem tanto roteiro pronto, sem aquela maquiagem montada só pra agradar turista.
Uganda não tem luxo exagerado. Não é instagramável o tempo todo. Mas tem um ritmo próprio e um contato genuíno com as pessoas.
E o Congo?
Por curiosidade, perguntei ao nosso guia — que já foi ranger em Bwindi — quanto custava o trekking no Congo. Ele respondeu que a permissão por lá custa U$$400 dólares, mas não é recomendo para turistas devido a instabilidade do país.
A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta conflitos armados há mais de 30 anos, especialmente no leste do país, onde estão os gorilas. Apesar do fim oficial da Segunda Guerra Congolesa em 2023, ainda há muita instabilidade, violência e risco real para turistas. Por isso, o turismo por lá é inviável.

Como organizamos a viagem
Viajar sozinha por Uganda é desafiador, especialmente sendo duas mulheres. Então decidimos fechar tudo com agência. Após muitos orçamentos fechamos com a Cia Eco, que não era nem a mais cara, nem a mais barata. Mas teve dois diferenciais que nos convenceram:
- A dona já tinha ido a Uganda duas vezes e também a Ruanda, então soube nos explicar com muita clareza as diferenças entre os dois destinos.
- E o mais importante para o bolso: permitia parcelar em 10 vezes (exceto as taxas dos parques, que são pagas a vista). E vamos combinar… brasileira raiz vive de parcelamento bem feito. Como diz o meme: “bem parceladinho, a gente vai pra qualquer lugar!”
O roteiro tradicional de quem visita Uganda:
- Floresta de Kibale: para ver chimpanzés;
- Queen Elizabeth Park: para fazer safári;
- Floresta Impenetrável de Bwindi: ver os gorilas.

A preparação para encontrar os gorilas
As trilhas em Bwindi são imprevisíveis.
Os gorilas vivem soltos em uma floresta densa e imensa, com mais de 320 km², sem cercas, sem rastreadores eletrônicos. Ou seja, eles podem estar em qualquer lugar, e o tempo de trilha até encontrá-los varia muito: de 10 minutos a 12 horas — sendo no máximo 6 horas de ida + 6 de volta.
Pra garantir que os grupos encontrem os gorilas, rastreadores locais entram na floresta de madrugada, sempre partindo do ponto onde a família foi vista no dia anterior. Eles identificam rastros, marcas, fezes frescas, galhos quebrados, tudo isso antes mesmo do sol nascer.
Mesmo assim, nada é garantido. Pode ser fácil, mediano, difícil. Pode ser exaustivo. E isso me deu um certo medo. Imagina chegar até lá, depois de anos sonhando, e não conseguir subir a trilha? Então, mesmo já sendo trilheira, me preparei como se fosse encarar as 12 horas.

Treinei o corpo, porque o meu maior medo não era o esforço, era o meu corpo me trair justo no dia mais importante da viagem.
Bwindi: a cidade dos gorilas-da-montanha
Bwindi era a última parada da nossa viagem. Já estávamos na estrada rumo às montanhas, mas aquele trecho parecia mais longo que os anteriores. A ansiedade começava a bater de um jeito diferente. Eu tentava não pensar demais na possibilidade de não ver os gorilas, mas é difícil controlar a cabeça quando se está tão perto de algo que você esperou por mais de trinta anos.
De repente, nosso guia e motorista apontou pela janela: “Olhem! A floresta de Bwindi.”

Colei o rosto no vidro e lá estavam elas: montanhas altas, cobertas por uma floresta densa, misteriosa, imponente. Meus olhos buscavam qualquer sinal de um gorila — sem chance, claro. Mas o cérebro já estava no modo “filme da tarde”, imaginando um King Kong aparecendo entre as árvores.
As curvas da estrada, de terra batida e cheia de buracos, iam desenhando o caminho até a pequena cidade que vive à sombra da floresta. Bwindi é pobre. Beirando a miséria, segundo nossos padrões. Mas tudo ali respira gorilas: lojas simples vendendo camisetas com estampas deles, bonequinhos de madeira, ímãs feitos à mão. Se não fossem os gorilas-da-montanha, provavelmente ninguém saberia que essa cidade existe.
Nos hospedamos num hotel lindo, que parecia uma vila de pequenas choupanas seguindo o relevo da encosta. Havia poucos hóspedes, pois a maioria fica apenas duas noites: a da chegada e a pós trilha. O assunto nas mesas girava em torno dos gorilas, alguns ansiosos para o encontro, outros eufóricos por já terem encontrado os gorilas. O staff ria da empolgação. Eles cresceram ali, gorilas fazem parte da vida deles. Pra gente, era um evento.
O dia do trekking em Bwindi
Na noite anterior, quase não dormi. A ansiedade era tanta que acordei bem antes do despertador, como se estivesse prestes a perder um voo. Precisávamos estar no headquarter às 7h da manhã para o briefing. Às 5h, eu já estava de pé.
Acho que revisei minha mochila pelo menos três vezes pra garantir que estava tudo ali: máscara, bateria extra pro celular e pra câmera, barras de cereal proteicas, boné, repelente.

Uma pausa pra explicar alguns itens importantes:
- O uso de máscara cobrindo nariz e boca é obrigatório durante a observação dos gorilas. Como compartilhamos com eles cerca de 98% do DNA (o mesmo vale pros chimpanzés), o objetivo é proteger os animais de possíveis doenças humanas.
- O boné com aba é uma dica valiosa que aprendi lá mesmo. Como a floresta é bem fechada, a aba funciona como um escudo para os olhos — desviando teias de aranha, galhos baixos, folhas. A aba “chega antes”.
- E as perneiras, que levei do Brasil depois de pesquisar bastante sobre o encontro com gorilas, são essenciais para proteger as canelas de picadas de insetos, formigas agressivas e animais peçonhentos.
Aliás, leve tudo o que for essencial do Brasil. Em Uganda, especialmente fora da capital, é bem difícil encontrar qualquer coisa pra comprar.
No café da manhã, quase não consegui comer. Meu estômago parecia ocupado por um redemoinho de pensamentos que giravam sem parar: que trilha pegaríamos, quanto tempo levaria até ver os gorilas, se haveria filhotes, se eu daria conta da subida, se teria como fazer xixi no caminho. A mente não parava.
Respirei fundo e tentei me ancorar na memória dos treinos, da preparação e da minha vontade absurda de viver aquilo. Eu ia dar conta. Nem que fosse me arrastando.
O hotel preparou um lanchinho reforçado para levarmos na trilha: sanduíche, frutas, bolo e água. Achei um cuidado tão bonito. No início, recusei, porque já estava levando minhas barrinhas de proteína do Brasil. Mas um dos funcionários me entregou a lancheira com tanto carinho, dizendo que a gente nunca sabia quanto tempo passaria na floresta, que era melhor ter comida extra do que passar aperto. Aceitei.

Ali no hotel também emprestavam perneiras e bastão de trilha. As perneiras, como eu disse, eu já tinha trazido do Brasil, depois de muita pesquisa. O bastão, por outro lado, foi uma surpresa fofa. Era de madeira, simples, mas na ponta, tinha o rosto de um gorila entalhado. Me apaixonei na hora. Nem precisava, mas fiz questão de levar um comigo.
Dica: Para proteger bem as pernas durante o trekking, o ideal é usar meias longas que cubram a canela — de preferência feitas de poliamida, que secam rápido e ajudam a evitar bolhas. A calça deve ser colocada por dentro da meia, e, por cima, vem a perneira. Essa combinação cria uma barreira eficiente contra formigas, animais peçonhentos e qualquer outro bichinho que possa aparecer no caminho.
Chegada ao centro de visitantes (headquarter)
Às 7h da manhã estávamos no headquarter, o centro de visitantes do parque, onde todos os trekkings começam.
Fomos direcionadas a uma área grande, com várias cadeiras organizadas ao ar livre. O ambiente estava animado, cheio de gente de vários lugares do mundo.
Enquanto aguardávamos o briefing oficial, um grupo de mulheres locais fez uma apresentação de danças típicas. Foi bonito e, ao mesmo tempo, ajudou a aliviar um pouco a ansiedade que pairava no ar.

Depois da dança, começou a palestra de orientação com o chefe do parque. Ele explicou, com bastante seriedade, as regras do trekking:
- É obrigatório o uso de máscara ao se aproximar dos gorilas.
- Não se pode, em hipótese alguma, tocar neles.
- A distância mínima a ser mantida é de 7 metros.
- Se o gorila se aproximar — o que pode acontecer —, a recomendação é manter a calma e só recuar se o guia pedir.
- Não fazer movimentos bruscos
- É importante falar baixo durante toda a trilha.
- Você pode chorar, sim (ninguém vai te julgar!), mas não pode ser aquele choro convulsivo, com soluço alto.
- E nada de flash nas fotos.
Todas essas orientações são para minimizar o estresse dos animais e garantir a segurança de todos. Também reforçaram o que já sabíamos: o tempo de permanência com os gorilas é de no máximo 60 minutos, cronometrado a partir do primeiro contato com a família. É pouco tempo (vai por mim!), mas necessário pra respeitar o ritmo deles.
O chefe do parque também apresentou os rangers que acompanhariam os grupo. Eles vão armados — não por causa dos gorilas, claro, mas porque estamos em uma floresta selvagem, onde vivem outros animais que podem representar risco. Um deles é o elefante da floresta, que eu, inclusive, só descobri que existia ali em Uganda, durante a trilha dos chimpanzés. Segundo eles, é um animal mais reservado, mas pode ser agressivo se se sentir ameaçado.

Também existem famílias de gorilas que ainda não foram habituadas à presença humana, então os rangers estão lá para intervir caso algo realmente necessário aconteça. Eles deixam bem claro: as armas não são pra atacar nenhum animal. Se for preciso, usam apenas disparos para o alto, pra assustar e afastar — sempre como último recurso.
Eles também explicaram que, caso aconteça algum imprevisto durante a trilha — como alguém torcer o pé ou passar mal —, o grupo segue com o trekking e a pessoa recebe assistência de uma equipe de apoio. Eles têm um protocolo pra isso, tudo é bem organizado.
Família Kanyinani
Depois do briefing, os visitantes foram divididos em grupos de até oito pessoas, cada um com um guia e dois rangers. Nós ficamos com uma família de japoneses e três americanos — e ali o clima já era de cumplicidade entre estranhos. Todo mundo meio animado, meio nervoso. Eu, então, nem se fala.

A ansiedade era tanta que eu já tinha ido várias vezes ao banheiro antes de sair — não por medo da floresta, mas porque meu corpo reage assim quando estou muito empolgada. Sabe aquela inquietação que não te deixa parada? Era isso. Queria que começasse logo.
O guia nos explicou um pouco sobre a família de gorilas que iríamos visitar, a família Kanyinani. Um dos japoneses perguntou se a trilha era fácil ou difícil, no que o guia respondeu que a princípio era uma trilha mediana. Mas nada era certeza, pois como os gorilas não tem rastreadores e vivem livres na natureza, um trilha fácil pode rapidamente se torna difícil ou vice-versa.
Logo depois, embarcamos no carro em direção ao ponto de partida da nossa trilha, que ficava a cerca de dez minutos do centro de visitantes. A Floresta Impenetrável de Bwindi tem várias entradas diferentes, e o local de início do trekking varia conforme a localização da família de gorilas que você vai visitar naquele dia. Algumas começam ali pertinho do headquarter; outras, como a nossa, exigem um pequeno deslocamento até uma área mais distante da floresta.
Confesso que naquele momento fiquei um pouco impaciente por ter que voltar para o carro. Eu queria começar logo, entrar na floresta, colocar o corpo em movimento. Mas ainda havia um último trecho até o início da trilha.
Chegamos a um estacionamento improvisado, de terra batida, e dali seguimos a pé por um caminho curto. Ao longo da trilha, algumas crianças se aproximaram oferecendo desenhos de gorilas feitos à mão numa tentativa de ganhar algum dinheiro. Em uma região tão pobre, aquela era uma das poucas formas que elas tinham de conseguir algum dinheiro com os turistas que passam por ali.
Floresta Impenetrável de Bwindi
Depois daquela primeira trilha curta, chegamos a um ponto mais aberto, onde o guia parou para fazer um breve briefing sobre o trecho que viria a seguir. A vista dali era linda — as montanhas cobertas pela floresta se estendiam à nossa frente, verdes e densas. Ele explicou que estávamos a cerca de 1.800 metros de altitude e que começaríamos descendo, para depois entrar numa parte mais fechada da mata.


O guia comentou que nós perceberíamos quando estivéssemos, de fato, dentro da floresta, porque o ar mudava. Confesso que achei um pouco exagerado. Caminhamos poucos minutos e, de repente, o ar ficou mais úmido, mais puro, mais fresco. Tinha cheiro de terra molhada, de plantas, um grande jardim perfumado. Todo mundo no grupo comentou quase ao mesmo tempo. Era real. O ar tinha mudado mesmo.
O mato foi se fechando, mas não a ponto de dificultar a caminhada. A vegetação era densa nas laterais, mas o caminho, apesar de irregular, era surpreendentemente aberto. Árvores altíssimas criavam sombra constante, e a copa lá no alto deixava o chão livre para seguir.
Não era uma floresta “escura” por dentro. Acho que na minha cabeça eu pensava que andaríamos numa floresta fechada, daquelas que você mal consegue se mover sem ter que afastar o mato. Não era assim. Pelo menos não no “meu lado” da floresta, não posso falar das outras entradas.
Lá dentro, o som também mudou. O barulho dos nossos passos abafados pela terra úmida, o canto de pássaros ao fundo, os sons típicos da floresta e, ao mesmo tempo, um silêncio.

A espera enquanto os rastreadores procuravam os gorilas
Seguimos caminhando por um tempo até que o guia pediu pra gente parar. Ele precisava entrar em contato com os rastreadores que tinham saído antes do amanhecer em busca da família de gorilas. A ideia era checar se já tinham encontrado algum sinal — pegadas, fezes, restos de alimentação — que indicasse por onde eles estavam.
A resposta veio rápida: os rastreadores ainda não tinham localizado a família, mas haviam encontrado rastros recentes. A estimativa era que eles estivessem a, no máximo, três quilômetros dali.
Enquanto esperávamos por uma atualização, o guia sugeriu que ficássemos parados ali mesmo, numa área mais aberta da trilha. Aproveitei pra ir ao banheiro improvisado (a floresta, no caso), e depois fiquei batendo papo com uma família do Alasca, que estava ali por um motivo curioso: eles são birdwatchers e vieram pra Uganda pra observar pássaros (lembra que eu falei da biodiversidade imensa do país?!). Descobriram o trekking dos gorilas quase por acaso, durante o planejamento da viagem, e decidiram incluir no roteiro.
Achei engraçado. Na minha cabeça, todo mundo que estava ali era tão obcecado por gorilas quanto eu, afinal são U$$800 dólares por pessoa, mas não. E eu ali, sentindo que tinha esperado a vida inteira por aquele momento.
O guia avisou que deveríamos permanecer onde estávamos por mais alguns minutos, até os rastreadores enviarem uma nova coordenada. Ele mesmo saiu para ajudar na busca, e nós ficamos ali, acompanhados pelos rangers.
Frente a frente com os gorilas-da-montanha
Depois de um tempo esperando, finalmente recebemos a notícia que os rastreadores tinham encontrado a família. Os gorilas estavam nas copas das árvores, se alimentando e por isso foi difícil achá-los. Ainda precisávamos caminhar mais uns 10 minutos pra chegar perto.

Quando paramos, o guia apontou pra cima. E lá estavam eles. Bem no alto, entre os galhos, comendo frutas. Não dava pra ver tudo, só pedaços — um braço, parte do dorso, o movimento de um galho balançando. Era real, mas parecia cena de documentário.
O guia disse para não nos preocuparmos, pois nosso tempo com os gorilas só começaria a contar a partir do momento que boa parte da família estivesse no chão. O que só aconteceria quando o silverback se sentisse satisfeito e descesse.


Enquanto isso, o guia aproveitou pra contar mais sobre aquela família. Falou do número de membros, das dinâmicas entre eles e avisou que havia um filhote entre os gorilas. Nós ficamos tirando dúvidas, tentando controlar a ansiedade, olhando pra cima, tentando adivinhar quando o silverback ia descer.
De repente, alguém soltou um “ownnn” baixinho. Quando olhamos, ele estava descendo. O silverback encostou no chão com uma leveza que não combinava com seu tamanho, ficou um tempo parado e depois começou a se movimentar na direção oposta a nossa. Foi aí que o guia disse: “Coloquem as máscaras. Vamos nos aproximar.”
Meu coração acelerou. Senti meu corpo entrar em modo alerta — mas não de medo, era mais como se todos os sentidos estivessem tentando absorver tudo ao mesmo tempo. Meus olhos queriam registrar cada detalhe, minha cabeça comandava freneticamente o arquivo das memórias. Eu sabia que teria apenas 60 minutos. E queria viver cada segundo.
Enquanto caminhávamos em direção ao silverback, o restante dos membros foram descendo: três fêmeas e um bebê agarrado em sua mãe. Fomos nos aproximando devagar , com o guia sempre à frente, sinalizando quando parar ou seguir. Quando dei por mim, estava a poucos passos da família Kanyinani — a minha família de gorilas. Fiz uma prece baixinha, agradecendo a Deus por estar ali. Meu sonho estava, literalmente, diante dos meus olhos.
Não chorei. Não dava tempo. A adrenalina corria nas veias, meus olhos queriam registrar tudo, e lágrimas embaçam a visão. Hoje, me emociono ao lembrar. Agora, revivendo tudo, as lágrimas escorrem enquanto escrevo.


Sessenta minutos
O tempo começou a correr. Sessenta minutos com os gorilas-da-montanha. Sessenta minutos que pareciam cinco.
O bebê era curioso. Observava a gente como quem tenta entender que tipo de animal estranho somos, mas logo se distraía com uma folha, um galho, se agarrava na mãe e voltava às suas pequenas aventuras. A mãe ficava sempre próxima do silverback — o guia explicou que ela buscava proteção para ela e o filhote. Ficava ali, catando o outro, com toda a calma do mundo. No geral, eles eram completamente indiferentes à nossa presença.

As semelhanças com os humanos são tantas que chega a ser desconcertante. As mãos, os pés, os gestos. A estrutura familiar. O cuidado com o bebê. O jeito como interagem entre si. Eles vivem o luto. Têm vínculos. E, sim, também fazem sexo por prazer, não só com intenção de procriar — mas nunca com seus descendentes.
Quando o guia avisou que faltavam dez minutos, guardei a câmera em definitivo. Já tinha feito dezenas (talvez centenas) de fotos, mas não queria passar os últimos momentos atrás da lente. Queria olhar. Só olhar. Ver com calma, absorver. Nós tentamos fotografar cada detalhe com medo de a memória falhar, mas nenhuma câmera, nem mesmo a profissional, faz jus à beleza desses animais nem à intensidade do momento.
E então, o aviso final: “última foto”. Mas eu já tinha tirado a minha. Só fechei os olhos por um instante, agradeci em silêncio, e me despedi deles com o coração. Olhei para o meu sonho uma última vez e fomos embora.
Ao todo, a trilha durou pouco mais de duas horas — sendo uma hora com os gorilas. Pra mim, foi uma trilha bem tranquila.

Voltei para o hotel em estado de graça. Sabe quando a gente está tão feliz que até sorri para a parede? Foram nove meses de preparação, renúncias, foco —o tempo de uma gestação. Trinta e dois anos de espera. Um sonho que começou com uma revista nas mãos de uma criança… e terminou diante de uma família de gorilas, no meio da floresta em Uganda.
E valeu cada segundo.
Dicas práticas para quem quer ver os gorilas em Uganda
- Permissão de trekking: U$$800 por pessoa (valor de 2026). Válido para 1 dia de visita, com guia e dois rangers. Deve ser comprado com muita antecedência, pois esgota.
- Onde fazer: Floresta Impenetrável de Bwindi, em Uganda.
- Melhor época: Estação seca – de junho a setembro e de dezembro a fevereiro.
- É preciso agência? Sim. Organizar sozinha é bem difícil e a logística no país é complexa.
- Tempo médio da trilha: De 30 minutos a 6 horas para ir (depende de onde os gorilas estão), + 1h com os gorilas.
- Visto: Solicite o e-Visa online antes da viagem. Valor: U$$ 50 pago com cartão de crédito.

Vacinas e saúde:
- Vacina contra febre amarela é obrigatória.
- Recomenda-se tomar profilaxia para malária.
- Leve repelente potente. Não economize.
Qual repelente? Levei o Exposis.
Ele tem Icaridina — um dos princípios ativos mais eficazes contra mosquitos — e, entre os disponíveis no Brasil, é um dos que tem maior concentração. Foi minha escolha pra Uganda e funcionou super bem.
O que levar na mochila?
- Lanches leves (o hotel costuma preparar um kit)
- Água
- Capa de chuva
- Boné (protege dos galhos e teias de aranha)
- Perneira (leve do Brasil!): coloque a perneira antes de entrar na mata
- Bastão de madeira (o hotel empresta)
- Máscara (uso obrigatório perto dos gorilas)
- Câmera com lente boa (sem flash)
Observação importante:
Mesmo na estação seca, o clima em Uganda pode ser imprevisível. No meu caso, não choveu durante a trilha, mas assim que voltamos ao headquarters pra pegar o certificado caiu um temporal! Quem ainda estava na mata com certeza se molhou inteiro. Por isso:
- Leve roupas impermeáveis (calça e jaqueta de trilha)
- Use camisetas de manga comprida.
- Use bota de trilha à prova d’água.
- Meias de poliamida até a canela
- Leve uma capa de chuva para você e outra para a mochila. Ou daquelas que cobrem você e a mochila.
- E se sua mochila não for impermeável, proteja os itens pessoais com sacos plásticos ou um saco estanque.
Pode parecer exagero, mas se chover no meio da trilha, você vai agradecer por ter seguido essas dicas. Ficar encharcada no meio da floresta, com horas de caminhada pela frente, não é nada divertido.
E aí, curtiu nosso relato de como é o trekking com Gorilas-da-montanha? Ficou com alguma dúvida? Deixe nos comentários.



