Seguindo os passos do Mar — uma viagem de encontros e reencontros pelo Litoral norte de Portugal

O sol bate forte na minha cabeça e eu já não consigo raciocinar direito. Talvez sejam as dores nas pernas, os pés latejando, ou talvez seja a fome. Caminhei mais de vinte quilômetros e estou exausta. Olho o mapa mais uma vez e para minha falta de sorte (ou desespero!) ainda faltam quase três quilômetros até Vila do Conde.

A estrada é de terra batida, há um matagal dos dois lados e, de vez em quando, passa um carro. Não tenho nem onde sentar para descansar cinco minutos. T-R-Ê-S quilômetros, penso, fazendo as contas mentais que não fecham. E, para piorar, terei que caminhar novamente amanhã, e depois, e depois. Devia ter treinado mais, praguejo mentalmente.

Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo

É o meu primeiro dia percorrendo o Caminho Português de Santiago, uma viagem sonhada há anos e escolhida a dedo para celebrar a comemoração dos meus quarenta anos, depois de alguns dias em Porto, segui para a vizinha Matosinhos para começar a viagem.

O mesmo mar que celebro nas orlas cariocas ganha novos contornos no litoral português. Bruto, intenso e por horas deserto. É ele quem guia meus passos, primeiro pelas praias ao norte do Porto e depois pelos passadiços que abrem caminho entre as dunas da Reserva Ornitológica de Mindelo. Por vezes me vejo obrigada a parar e tragar as vistas que vão se multiplicando com as curvas do calçadão. E foi numa dessas passagens, que o caminho me guiou ao topo de uma encosta. Olhei para baixo e vi uma mulher fazendo topless, deitada sozinha na areia. Não havia mais ninguém naquela praia enorme. Ela apenas tomava sol enquanto o Atlântico se estendia à sua frente. Isso sim era ser livre.

Fiquei alguns segundos olhando e me perguntando se ela se sentia tão maravilhada quanto eu com a beleza daquela praia e daquele mar, por ora, só dela. Agora, a três quilômetros de encerrar meu dia, eu já não penso em beleza de praia nenhuma, eu só quero chegar.

Marco Geodésico São Paio na Reserva Ornitológica de Mindelo

O mapa manda seguir adiante. Olho para o céu em busca de alguma ajuda e continuo me arrastando até chegar a uma ruazinha de pedra, completamente vazia. Estou no meu limite. E, aparentemente, no limite de alguma cidade também: de um lado, um terreno baldio; do outro, os fundos das casas. 

Vejo um movimento pelo canto do olho e percebo um homem me chamando. Ele está no alto da escadaria de uma pequena igreja e acena para que eu suba. Demoro a entender que quer carimbar minha credencial de peregrina. Pelo sorriso com que me chama, parece estar me oferecendo um prêmio.

Olho para ele, olho para a escada que não quero subir e minhas pernas mais uma vez reclamam, mas como posso desapontar aquele senhor baixinho e simpático que continua acenando cheio de alegria. Lentamente subo, um degrau de cada vez.

Entrego minha credencial e ele me convida para entrar na igreja. Enquanto carimba, aproveito para me sentar. Os músculos das coxas latejam, meu joelho reclama. Fecho os olhos por alguns segundos, tentando dar algum descanso ao corpo.

Quando abro, vejo o altar e reconheço São Sebastião, o padroeiro do Rio de Janeiro, minha terra natal. Imediatamente lágrimas escorrem pelo meu rosto cansado. Depois de tanta caminhada, encontrar uma figura tão familiar me desmonta. Foi como reencontrar um conhecido a milhares de quilômetros de casa. Fico sentada mais alguns instantes e quando me levanto, o senhor já me espera na porta. Devolve minha credencial carimbada e pergunta:

— Vai para Vila do Conde?

Confirmo.

— Falta pouco. Uns dez minutos.

Dez minutos depois, estou na porta do meu hotel.

Caminho português da Costa no litoral norte de Portugal
Vila do Conde

Norte de Portugal a pé

Vila do Conde foi a primeira parada de uma caminhada que me levaria pelo norte de Portugal até a fronteira com a Espanha e, depois, pela Galícia até Santiago de Compostela. Nos próximos dias eu passaria por Esposende, Viana do Castelo, Caminha e Valença, além de pequenas cidades e vilarejos que descobri enquanto seguia as setas amarelas do Caminho Português da Costa — às vezes à beira-mar, outras por estradas rurais e trechos de floresta.

A peregrinação completa, do Porto a Santiago de Compostela, levaria onze dias. Mas, logo nos primeiros instantes fui surpreendida por paisagens e vilarejos que eu nem sonhava em encontrar no Norte de Portugal. Aos poucos fui percebendo que o país que chamei de lar dos 13 aos 15 anos me recepcionaria a primeira década dos “enta” com belas surpresas, alguns reencontros, e claro, com ao som do mar.

Porque escolhi o Caminho

A vontade de percorrer o Caminho de Santiago nasceu aos 14 anos, na cidade do Porto, quando li O Alquimista, de Paulo Coelho, e descobri a existência da peregrinação milenar. Prometi a mim mesma que um dia, eu também a faria rota. E como tantas promessas que começam com “um dia”, essa também ficou guardada na caixa por mais de duas décadas.

Às vésperas dos meus 40 anos, descobri o Caminho Português da Costa, uma forma de juntar meu sonho de viagem com a paixão pelo mar, um sinal que finalmente tinha chegado a hora. A rota ainda me levaria para as páginas de um segundo livro, O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, onde Viana do Castelo protagoniza uma história de sabores e memórias — como se a cidade já soubesse, antes de mim, que eu estava a caminho.

pontos turísticos imperdíveis no Porto
Ponte D. Luís I

Havia ainda outra razão para começar no Porto. O período que passei na cidade me deixou lembranças tão difíceis que levei muitos anos para querer voltar a Portugal. Aos poucos, porém, construí novas memórias no país. Dessa vez, voltei ao Porto não para remendar o passado, mas para construir uma nova relação com a cidade onde, aos quatorze anos, descobri o Caminho de Santiago. Vinte e seis anos depois, eu estava no Porto outra vez. Não para ficar, mas para partir. E faria isso com meus próprios pés

Paradas no Norte de Portugal

Para ajudar a organizar a sua leitura (e quem sabe o seu Caminho pelo Norte de Portugal), dividi este relato em cinco partes que coincidem com as minhas paradas no norte de Portugal.

O meu Caminho continuou pela Galícia e levei outros seis dias para chegar a Santiago de Compostela. Mas esta história fica em Portugal, nas belezas e nos encontros e reencontros que vivenciei por lá. Que o meu trajeto pelo Norte de Portugal sirva como guia para a sua viagem de descobrimentos, seja rumo a Santiago de Compostela — recomendo muito —, seja vivendo as delícias da Terra de Camões.

Dia 1: De Matosinhos a Vila do Conde

Acordei muito cedo. Estava ansiosa para começar o Caminho de Santiago, numa mistura de apreensão e empolgação com a ideia de colocar uma mochila nas costas e sair caminhando. Mas, para começar, eu ainda precisava caminhar até o metrô e seguir em direção a Matosinhos, onde tudo começaria de fato.

Entrei no metrô e segui até a última estação, Senhor de Matosinhos. Na ânsia de viver a minha aventura, esqueci de conferir a parada que eu deveria descer. Na minha cabeça, era só chegar ao ponto final e começar a caminhada, mas chegando lá descobri que deveria ter descido uma estação antes, em Matosinhos Sul. Precisei voltar a pé até o ponto de onde deveria ter descido. O resultado foi que meu Caminho de Santiago nem havia começado e eu já tinha aumentado o percurso.

Praia em Matosinhos, como chegar
Farol de Leça

Seta amarela e carimbos peregrinos

Depois desse pequeno desvio, segui em direção à Ponte Móvel de Leixões. Foi na entrada dela que encontrei a primeira seta amarela da viagem – as setas são um símbolo do caminho e guiam os peregrinos rumo a Santiago. Como não sorrir? Vinte e seis anos depois de colocar o Caminho de Santiago na lista dos sonhos, eu oficialmente comecei o caminho.

Nas minhas costas uma mochila de sete quilos com apenas os itens essenciais, uma troca de roupas completa, roupas íntimas, alguns poucos itens de banho, um casaco corta ventos, água, um lanche e uma capa de chuva. O ideal é carregar menos que dez por cento do peso do seu corpo, e aceite, para peregrinos de primeira viagem como eu, montar a mochila ideal é o primeiro grande desafio da viagem.

Atravessei a ponte e continuei pelas ruas de Leça da Palmeira em direção à orla. Neste trechinho conquistei outro pequeno marco simbólico da rota: meu primeiro carimbo de peregrina.

roteiro norte de Portugal
Entre setas amarelas e o mar: meus dois guias nesta jornada

Uma atendente de um café chamava quem passava de mochila para entrar e carimbar o documento. Ao longo dos dias, eu perceberia que cafés e pequenos comércios usam os carimbos para atrair os peregrinos, que muitas vezes aproveitam a parada para consumir alguma coisa.

Os carimbos são uma tradição do Caminho e servem também para comprovar ao Escritório do Peregrino — órgão que emite o certificado da peregrinação, a Compostelana — que você percorreu aquele trajeto. Para quem faz o Caminho a pé, é preciso ter pelo menos um carimbo por dia ao longo do percurso. A partir dos últimos cem quilômetros até Santiago de Compostela, a exigência passa a ser de dois carimbos por dia.

Fui recebida na orla por um dia bonito e calor de verão, mesmo sendo primavera. As praias estavam cheias de gente tomando sol e, no calçadão, havia pessoas fazendo exercício ou passeando com os cachorros. Eu seguia as setas amarelas enquanto, ao meu redor, as pessoas seguiam seus dias.

Com o Atlântico ao lado

Neste dia passei por pontos interessantes como a Capela da Boa Nova, uma pequena igreja branca construída praticamente sobre as pedras e de frente para o Atlântico. Ela estava fechada, mas aproveitei as vistas e o silêncio do mirante que fica nas suas costas. Foi depois dessa parada que começaram os passadiços de madeira que marcariam boa parte do caminho litorâneo.

São quilômetros e quilômetros de passadiços que recortam o litoral criando um caminho para os peregrinos e protegendo as dunas e a vegetação nativa. Nessa jornada atravessei praias, dunas, extensas áreas de vegetação rasteira, e de tempos em tempos um monumento ou memorial, como Obelisco da Memória – que demarca o ponto de desembarque das tropas comandadas por D. Pedro durante as Guerras Liberais em 1832,– quase sempre com o mar ao meu lado esquerdo.

Em alguns pontos, o passadiço seguia no nível da praia; em outros, se debruçava na encosta e deixava o mar lá embaixo. Havia trechos com bancos de frente para o mar, e eu aproveitei a deixa para comprar meu sanduíche na Praia das Pedras Brancas e devorar num desses bancos enquanto namorava o mar.

Foi num desses trechos mais altos, perto do Marco Geodésico de São Paio, que avistei, lá embaixo, a mulher deitada sozinha na areia, a praia imensa e deserta, o vai e vêm das ondas e a beleza de um litoral que me encantou desde a saída de Matosinhos. Uma imagem de liberdade que me acompanhou durante todo o caminho. Levei alguns dias para perceber que assim como ela —sozinha na praia — eu também desafiava padrões, convenções sociais e meus próprios medos ao caminhar 280 km e atravessar dois países sozinha.

Na região de Mindelo – um dos trechos mais belos de todo o meu caminho –, os passadiços atravessaram a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo, costurando uma paisagem em que áreas naturais e pequenas localidades se alternavam o tempo todo. Em alguns momentos, eu passava rente às casas e às ruas; logo depois, estava novamente cercada por dunas, zonas úmidas e vegetação costeira. Aos poucos, a Vila do Conde, meu ponto de parada foi ganhando contorno, e o primeiro dia de caminho —duríssimo, mas maravilhoso — chegou ao fim.

Dia 2: De Vila do Conde para Esposende

Na manhã seguinte, acordei sem dores e animada para continuar. Meu corpo tinha respondido melhor do que eu esperava aos vinte e quatro quilômetros do dia anterior. E sim, meus anos de musculação, somados aos treinos seis vezes por semana ao longo dos oito meses que antecederam à viagem fizeram toda a diferença. Comecei com 5 km, aumentei para 8 km, depois 10 km e cheguei aos 12 km. Na reta final, caminhava três ou quatro vezes por semana. Mas nunca cheguei nem perto dos 24 km que caminhei no primeiro dia.

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Passadiços em Póvoa de Varzim

De manhã cedo, a orla estava quase vazia. Alguns peregrinos caminhavam com suas mochilas, moradores passeavam com os cachorros e outros seguiam para o trabalho enquanto eu atravessava Vila do Conde e Póvoa de Varzim ouvindo, ao mesmo tempo, o barulho do mar e o de uma cidade que começava a acordar. A vantagem de caminhar ao lado do mar é que boa parte do caminho parece intuitiva: basta seguir em frente, em direção ao norte, mantendo o Atlântico do meu lado esquerdo.

Em alguns trechos, o Caminho seguia por passadiços sobre dunas altas o suficiente para esconder o mar, me restando apenas o som das ondas. Em outros, o passadiço atravessava por cima de uma vegetação rasteira. Foi como caminhar na fronteira entre a cidade e o mar.

Apúlia — entre o mar e a cidade

A paisagem mudava aos poucos. Vieram estradas rurais, plantações, campos de golfe e caminhos de terra. Em Apúlia, voltei a encontrar o mar. Àquela altura, porém, tudo isso disputava minha atenção com a fome.

Parei em um restaurante local que servia o menu do dia (prato principal + taça de vinho) e pude escolher entre o peixe do dia ou feijoada à transmontana. Não pensei duas vezes. A feijoada é um prato que brasileiros e portugueses compartilham, cada um à sua maneira. A versão transmontana é feita com feijão vermelho, o meu preferido. Não comia havia anos e, na primeira colherada, percebi o tamanho da saudade. O vinho da casa, que não consigo me lembrar o nome, acompanhou o prato com perfeição. Comer e beber bem é uma das grandes vantagens de fazer o Caminho Português da Costa. A gastronomia portuguesa acompanha a viagem tão de perto quanto o mar.

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Feijoada à transmontana

Na hora de pagar, ainda troquei ideia com o dono do restaurante que abriu um sorriso ao descobrir que eu era do Rio de Janeiro, e se declarou apaixonado pelas praias cariocas. Contei que também achava as praias do Rio lindas, mas que estava surpresa com as belezas do litoral norte de Portugal.

— Para o norte é ainda mais bonito.

Dias depois, eu descobriria que ele tinha razão.

De volta ao caminho, passei pelos antigos moinhos de Apúlia, construídos em granito e xisto e usados para transformar cereais em farinha com a força dos ventos da costa. Hoje, eles perderam a função original e alguns funcionam como habitações de veraneio.

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Moinhos de Apúlia

Só mais tarde entendi que aquela paisagem que eu vinha atravessando — com o mar de um lado e campos cultivados do outro — não é apenas bonita. Ela conta um pouco da história de Apúlia. Durante séculos, a população local viveu entre a pesca e a agricultura. Os sargaceiros recolhiam o sargaço trazido pelo mar, espalhavam-no na areia para secar ao sol e depois o utilizavam como fertilizante nos campos.

Esposende — entre o rio e o mar

Chegando em Esposende, depois de deixar a mochila no hotel e de tomar banho, saí para desvendar a cidade sem planos ou obrigações. Já passava meus dias seguindo setas (e o GPS) e não queria mais uma lista dizendo o que eu precisava fazer ou conhecer. Foi uma ótima escolha!

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Estuário do Rio Cávado em Esposende

Era finalzinho de tarde e havia aquela movimentação gostosa de dia bem terminado: crianças brincavam em um enorme parquinho em formato de barco, gente voltando para casa e restaurantes começando a receber os primeiros clientes da noite. Aos poucos fui percebendo a conexão da cidade com a água: Esposende fica junto ao estuário do rio Cávado, pouco antes de ele encontrar o Atlântico, e sua marginal acompanha a margem direita do rio. Foi por ali que entrei na cidade, depois de atravessar a ponte que liga Fão a Esposende, e foi também por aquela margem que escolhi caminhar no entardecer.

Passei pelo Museu Marítimo sem saber que o próprio prédio contava um pedaço daquela relação com o mar. Ali funcionou, desde 1906, uma estação de socorro a náufragos, criada para atender quem dependia do mar para trabalhar, fosse na pesca ou no comércio. Pouco adiante, no Largo Rodrigues Sampaio, o Monumento ao Homem do Mar homenageia as gerações de moradores que tiraram seu sustento do mar: cinco figuras cercam a quilha de uma embarcação, numa referência às diferentes atividades ligadas à vida marítima.

O largo estava cercado de cafés e restaurantes, naquela hora cheios de peregrinos aproveitando os últimos raios de sol — os últimos mesmo, porque o céu já anunciava chuva. Sentei no La Bodega e pedi uma taça de vinho verde. Afinal, estava no Minho, a região dos famosos Vinhos Verdes de Portugal, e nada melhor do que um vinho fresco para beber sem pressa e celebrar minha estadia.

E viva Esposende e essas paradas do Caminho: mesmo sem nenhum acontecimento extraordinário, deixei a cidade encantada pela hospitalidade, pela simpatia e, claro, pelo vinho.

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Vinho verde e Francesinha minhota no restaurante La Bodega

Conheça melhor o Vinho Verde

Vinho Verde não é apenas um vinho branco, leve e jovem. É uma denominação de origem que ocupa boa parte do noroeste de Portugal e se divide em nove sub-regiões. Ali são produzidos vinhos brancos, tintos, rosés e até espumantes, a partir de diferentes uvas e com características que mudam de um lugar para outro.

Esposende faz parte da sub-região do Cávado, muito influenciada pelo Atlântico. O clima ameno e úmido ajuda a preservar a acidez das uvas e dá origem a brancos muito frescos, muitas vezes com notas cítricas. Entre as uvas típicas dali estão Loureiro, Arinto e Trajadura.

E já que eu estava no Minho, em plena Região dos Vinhos Verdes, pretendia aproveitar todas as oportunidades possíveis para beber vinho verde.

Dia 3: De Esposende para Viana do Castelo

Saí às oito da manhã de Esposende. Tinha chovido durante a noite, mas naquele momento o céu estava apenas nublado. Segui em direção à orla, fiz uma parada rápida para foto no letreiro de Esposende e continuei. O mapa e as setas logo me levaram para o interior. Eu ainda não sabia que havia diferentes variantes da rota e imaginei que aquele fosse apenas um desvio temporário até que o Caminho retornasse à orla.

A chuva chegou antes mesmo de eu completar uma hora de caminhada. Entrei em um café para vestir minha capa de chuva, proteger a mochila e aproveitei para tomar café da manhã. Pedi um expresso, um pão com chouriço e uma Clarinha de Fão, doce típico da região feito com uma massa fina e recheio de chila e gemas.

Sou apaixonada pelos doces conventuais portugueses. Quando viajo para Portugal, já vou pensando nos que quero comer. Meu preferido é o toucinho do céu, que aprendi a fazer em casa com uma receita da minha avó. Com a Clarinha de Fão nas mãos, mais uma vez confirmei: ninguém sabe juntar gema e açúcar como os portugueses.

A doçaria conventual portuguesa nasceu, como o nome entrega, nos conventos e mosteiros. Gemas, açúcar e amêndoas estão na base de muitas dessas receitas, que variam de região para região. Não saia de Portugal sem provar essas delícias.

O Portugal que só se vê a pé

Segui por pequenas cidades, ruas de pedra, subidas e descidas. De vez em quando, entre uma casa e outra, conseguia ver o mar ao longe. Em Marinhas, percebi como algumas delas dialogam com o caminho. Havia pequenos cestos com bombons para os peregrinos, mapas onde podíamos marcar de onde vínhamos e placas indicando as distâncias até as próximas cidades, Santiago e Fátima.

Como é o Caminho Português da costa no norte de portugal
Casas que conversam com o peregrino em Marinhas

Uma das minhas preferidas tinha dois tênis de trilha presos ao muro: o amarelo apontava para Santiago e o azul, para Fátima. Embaixo de cada um estavam as respectivas distâncias e, ao lado, imagens de Santiago e de Nossa Senhora de Fátima completavam a indicação. As cores não eram apenas decoração. Naquela região, os Caminhos de Santiago e de Fátima compartilham alguns trechos: as setas amarelas indicam a direção de Santiago e as azuis, a de Fátima.

Quanto mais avançava por aquelas ruas, mais detalhes das casas começavam a chamar minha atenção. Havia limoeiros carregados de limões-sicilianos, que pareciam grandes demais para serem de verdade, roseiras cobertas de flores vermelhas e muros com o nome da família que morava ali, algo que não me lembro de já ter visto no Brasil. Algumas tinham jardins impecáveis; algumas tinham brinquedos espalhados pela varanda, outras me lembravam as casas do interior do Rio. Pequenos detalhes que me diziam alguma coisa sobre quem vivia atrás daqueles portões.

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Decoração das casas em Marinhas

Era um dia de chuva, só havia peregrinos caminhando pelas ruas, então comecei a imaginar quem vivia atrás daqueles portões. E qualquer detalhe servia de pista. Eu me pegava tentando imaginar quem eram aquelas pessoas, como seria a vida delas. Eram novas, velhas? Tinham muitos filhos, netos? Quem cortava a grama do jardim?

Eu reparava nessas coisas porque estava a pé. Eu não seguia pelas autoestradas rápidas, mas por ruas pequenas, atravessando vilas e freguesias onde os poucos carros que passavam pareciam ser de quem morava por ali. Caminhar me obrigava a olhar devagar. De carro, aquele seria apenas o trajeto entre Esposende e Viana do Castelo.

Belinho

Em Belinho, a chuva apertou e aproveitei para parar na Igreja Matriz, carimbar minha credencial de peregrina, me proteger da chuva e descansar as pernas por alguns minutos. Nos trechos que percorri em Portugal, encontrei as igrejas quase sempre abertas, algo que mudaria quando chegasse à Espanha. Para quem passa o dia caminhando, elas são pequenos pontos de descanso: eu entrava, conhecia a igreja, sentava por alguns minutos, agradecia pelo trajeto e, em algumas delas, ainda encontrava banheiro limpinho antes de seguir viagem.

Entre florestas e rios

A chuva diminuiu e eu segui caminhando. Em Antas, o Caminho me levou para dentro de uma floresta. A trilha era estreita, cercada por árvores altas e samambaias, e logo as casas desapareceram de vista. Confesso que, no início, fiquei com medo. Eu estava fazendo aquela viagem sozinha e, embora quase sempre encontrasse outros peregrinos pelo caminho, no momento em que entrei na floresta não havia ninguém por perto. Como mulher, aquele isolamento sempre me deixava um desconfortável.

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Floresta em Antas

Conforme caminhava, comecei a ouvir um barulho de água correndo em algum lugar abaixo de mim. Também ouvi vozes de mulheres ao longe, o que me deixou mais tranquila — se havia conversa, havia gente. Mais tarde encontrei duas meninas de uns 19 anos e, depois, um casal.

Continuei tentando descobrir de onde vinha o som da água até finalmente avistar, lá embaixo, o leito do rio Neiva. Naquele trecho, ele separa Antas, ainda no concelho de Esposende, de Castelo do Neiva, já no concelho de Viana do Castelo.

Quanto mais eu entrava na floresta, mais o silêncio se impunha. Aos poucos, ficaram apenas o canto dos pássaros e o som da água correndo. O caminho acompanhava o rio e, vez ou outra, pequenas quedas-d’água faziam o barulho aumentar. A trilha também ia descendo, me aproximando cada vez do curso d’água. Fiquei tão maravilhada com a beleza ao meu redor que, em algum momento, esqueci que estava com medo de caminhar sozinha por uma floresta.

Até que cheguei à travessia do rio, por uma ponte estreita de pedra ao lado de uma casinha branca e com uma pequena queda-d’água em um dos lados. Cruzei o Neiva e, quase sem perceber, deixei o concelho de Esposende e entrei no de Viana do Castelo.

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Ponte dentro da floresta que separa Antas de Castelo do Neiva

Continuei por um pequeno trecho acompanhando o rio e na sequência, subi pelas ruas de Castelo do Neiva até chegar à Igreja de Santiago. Ainda garoava quando vi uma estátua de peregrino do lado de fora e decidi entrar para carimbar minha credencial.

Eu só descobriria depois que aquela igreja têm com uma ligação muito mais antiga com o Caminho do que o carimbo me fazia imaginar. Consagrada em 862, a Igreja de Santiago de Castelo do Neiva é templo mais antigo dedicado ao Apóstolo Tiago fora do território espanhol.

Saí com a chuva me esperando do lado de fora. O próximo trecho alternou pedacinhos de mata e ruas até retornar à floresta. Foi aí que a chuva apertou de verdade, desafiando minhas roupas impermeáveis e exigindo cuidado redobrado para não escorregar no chão lamacento. Me vi forçada a esquecer a paisagem e focar em cada passo.

Saí da floresta já em Neiva, próximo ao Mosteiro de São Romão do Neiva. Há registros de uma comunidade monástica naquele local desde o século XI, embora boa parte do conjunto que existe hoje seja resultado das reformas feitas pelos beneditinos séculos mais tarde.

Logo na saída da mata havia uma pequena barraca montada para atender os peregrinos. O senhor que cuidava dela vendia café, lanches, cigarros e outras coisas que alguém caminhando há horas poderia precisar. Ele havia estendido um plástico enorme sobre a barraca, criando um abrigo improvisado da chuva e muito bem vindo em meio a chuva torrencial que regava o caminho. Me uni aos dois peregrinos que já estavam por lá e pedi um café quentinho.

Ao me escutar falando português, o vendedor ficou todo contente por finalmente falar português depois de um dia todinho conversando em inglês. Aproveitei a deixa e o papo para beber meu café vagarosamente esperando a chuva diminuir. Assim que ela virou garoa, me despedi e voltei para o Caminho. Ainda tinha muito chão até Viana do Castelo.

Monumento do Apóstolo Tiago no Caminho Português da Costa em Antas em Portugal
Monumento do Apóstolo Tiago no Caminho Português da Costa

Chafé

Em Chafé, a chuva deu uma trégua e eu decidi entrar em um café para descansar um pouco e, principalmente, me aquecer. Escolhi a Pastelaria São Sebastião, que do lado de fora parecia apenas uma portinha, mas lá dentro se estendia bastante. Entrei, pedi um cappuccino, sentei e fui me esquentando com o calor da bebida gole a gole. Até que uma menina bem nova sentou ao meu lado, tirou os sapatos e revelou os pés cheios de bolhas. Para um peregrino, poucas coisas são tão preocupantes quanto uma bolha, pois dependendo da gravidade, a dor pode transformar cada passo em sofrimento. Muita gente é obrigado a interromper ou pausar a peregrinação por causa de bolhas.

Eu carregava na minha necessaire de primeiros socorros curativos próprios para bolhas e os ofereci a ela. Com eles ela conseguiria chegar a próxima parada em Viana do Castelo. Nos despedimos, desejei boa sorte e continuei.

Como consegui fazer o Caminho sem bolhas

Eu percorri todo o Caminho sem ter uma única bolha. Antes da viagem, li em um grupo de peregrinos a dica de passar vaselina sólida nos pés para diminuir o atrito com as meias e resolvi testar.

Todas as manhãs, antes de calçar as meias, eu cobria os pés com uma camada generosa de vaselina — generosa mesmo. Ao longo dos onze dias, usei um pote inteiro de 100 g. Também investi em meias próprias para caminhada, de lã merino, que ajudam a lidar com a umidade e o atrito durante muitas horas de atividade. Não sei dizer se foi a vaselina, as meias ou a combinação das duas coisas, mas comigo funcionou: cheguei a Santiago sem uma única bolha. E claro, testar bem o calçado antes de viajar é essencial!

A essa altura, eu já tinha entendido que minha suposição ao sair de Esposende estava errada. Apesar do nome Caminho Português da Costa, aquele trecho seguia pelo interior. Passei inclusive perto da Praia da Amorosa sem sequer ver o mar.

Viana do Castelo à vista

Quando cheguei a Vila Nova de Anha, eu já estava cansada. Sabia que faltava pouco para Viana do Castelo, mas minhas pernas estavam exaustas dos vinte quilômetros percorridos. Então olhei para a frente e vi uma ladeira enorme. E muito inclinada.

Eu carregava sete quilos na mochila, além do peso do meu próprio corpo, e minhas pernas reclamaram imediatamente. Não era possível que não houvesse um caminho mais fácil. Mas a seta amarela apontava justamente para cima. O jeito foi subir, um passo de cada vez.

Viana do Castelo visto de Anha
Viana do Castelo visto de Anha

Para compensar o esforço, Viana do Castelo apareceu no horizonte. Parei alguns minutos para contemplar aquela vista que nunca vou esquecer: a cidade se desdobrando entre árvores, como uma pintura, espalhada diante do rio Lima. Suas construções e a Ponte Eiffel atravessando o rio contorno por contorno. Foi como dar forma as páginas do livro Arroz de Palma, emocionante!

Sim, Eiffel como na Torre Eiffel de Paris. Inaugurada em 1878, a ponte foi construída pela Casa Eiffel, empresa de Gustave Eiffel, e tem mais de 500 metros de estrutura metálica divididos em dois tabuleiros: o superior para carros e pedestres e o inferior para os trens. E foi por cima desta ponte que entrei em Viana do Castelo.

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Ponte Eiffel em Viana do Castelo

Viana do Castelo

Só que não bastava chegar, na cidade, eu ainda precisava subir ao topo do Monte de Santa Luzia — que foi se revelando conforme eu me aproximava da ponte — para chegar ao meu hotel. Escolhi ficar no ponto mais bonito da cidade e assim adicionei alguns quilômetros a mais aos vinte e seis já caminhados. Viana do Castelo era a maior das cidades que eu já havia visitado até então, e para chegar, segundo o Google Maps, eu precisaria caminhar mais TRINTA minutos.

Quase chorei! Entrei em estado de negação e resolvi seguir as placas sem raciocinar que as placas eram para os carros, não para os pedestres. Foi assim que descobri que Viana do Castelo tem passagens subterrâneas para atravessar algumas avenidas. Entrei em uma dessas passagens sem saber exatamente onde deveria sair, me perdi lá embaixo e consegui a proeza de voltar para o mesmo lado da rua onde estava antes, só que alguns metros adiante. Fui obrigada a me render ao GPS que me guiou até a estação ferroviária de Viana do Castelo, mandou subir as escadas e atravessar para o outro lado. Só aí entendi a geografia da cidade: de um lado está a parte baixa, junto ao rio, onde fica o centro histórico; do outro, a cidade se ergue em direção ao Monte de Santa Luzia.

Monte de Santa Luzia

Pertinho da estação fica o Elevador de Santa Luzia que conecta a cidade ao monte, mas quem preferir pode subir a pé (eu passei!) ou de carro. A viagem não é exatamente panorâmica, mas as cabines têm janelas laterais que permitem acompanhar a subida e ver a cidade e o mar surgindo lá embaixo. Ô vista bonita!

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Elevador de Santa Luzia

Fiquei hospedada no Albergue de Santa Luzia, , que fica atrás do Santuário e recebe tanto peregrinos quanto outros viajantes. Eu estava exausta, mas não resisti a dar uma passadinha no Santuário de Santa Luzia para conhecer a basílica, cuja construção começou em 1904 e só foi concluída em 1959. O exterior, porém, já estava pronto desde 1943.

Por dentro, a luz entra pelas enormes rosáceas, consideradas as maiores da Península Ibérica e as segundas maiores da Europa. No altar-mor, dois anjos seguram os escudos de Portugal e de Viana do Castelo diante do Sagrado Coração de Jesus. Outro destaque é a vista caprichada da cidade, do rio Lima e o litoral! Se em um dia nublado eu já fiquei encantada, imagine só em um dia de sol!

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Santuário de Santa Luzia

Depois da visita, segui para o alberguei, tomei meu merecido e criei coragem para andar mais um pouco para desbravar o centro da cidade. Desci novamente o monte pelo funicular até chegar no centro one guardei o celular no bolso e comecei a caminhar sem direção.

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Viana do Castelo vista do Santuário de Santa Luzia

Uma cidade coberta de flores

Um pouco adiante me deparei com mulheres decorando grandes estruturas com flores, logo percebi que não era uma decoração isolada e que pontos turísticos como a Praça da República e o Largo de São Domingos, também estavam sendo enfeitados. Curiosa, peguei o celular e pesquisei o motivo da decoração, trata-se da Viana Florida, evento que transforma ruas e praças do centro histórico com arranjos florais. Na edição de 2026, cerca de 40 mil flores frescas foram transformadas em grandes ornamentos.

Fiquei tão distraída acompanhando os preparativos que só tarde demais percebi que um dos edifícios da Praça da República abrigava o Museu do Traje, dedicado aos trajes tradicionais de Viana e à cultura têxtil do Alto Minho. Infelizmente, dei de cara com o museu fechado, mas, se eu fosse você, me programaria para fazer essa visita e descobrir a histórica por trás dos trajes tão coloridos.

Continuei o passeio pelas ruas enquanto tentava decidir onde comer, até que meus pés me levaram de volta à Praça da República. Escolhi o restaurante Sancho Panza Viana Grill e, para comer, pedi uma francesinha, um dos pratos mais emblemáticos do norte de Portugal. De sobremesa, provei pela primeira vez as natas do céu, feitas com natas, creme de ovos e uma camada de biscoito triturado. A garçonete me contou que é um doce bastante comum na região. Cremoso e docinho, foi uma ótima forma de terminar o jantar

Noite fria pede vinho tinto, e em plena Região dos Vinhos Verdes, por que não um vinho verde tinto? Pedi uma taça do vinho da casa. Deliciosamente encorpado e muito aromático. E para quem ficou curioso, sim, Vinho Verde também pode ser tinto, e os tintos tradicionais da região são bem diferentes daquele branco leve que muita gente associa à denominação. A Vinhão, casta tinta mais utilizada na Região dos Vinhos Verdes, costuma produzir vinhos de cor intensa, encorpados, com taninos marcantes e acidez alta.

Antes de retornar para o albergue, chamei um carro de aplicativo para me poupar da subida do monte e voltei ao Santuário. Queria ver Viana do Castelo transformada pelo anoitecer e me despedir das vistas de uma cidade que me encantou. Fiquei ali por alguns minutos olhando as luzes da cidade e o rio lá embaixo. O mar desaparecia na escuridão e na névoa de uma noite bela, porém fria. Valeu a pena!

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Santuário de Santa Luzia a noite

A francesinha é uma das grandes especialidades do Porto e uma verdadeira instituição na gastronomia da cidade. É um sanduíche nada delicado: entre as fatias de pão vão carnes e embutidos, cobertos com queijo derretido, ovo e uma quantidade generosa de molho quente e avermelhado, geralmente feito com tomate, cerveja e outros ingredientes que variam de receita para receita. As batatas fritas completam o prato.

Dia 4: De Viana do Castelo a Caminha

Depois de uma noite gelada — a primeira em que passei frio na viagem —, a manhã amanheceu igualmente fria. O albergue servia café da manhã, uma exceção no Caminho, e aproveitei para trocar o café solúvel que carregava na mochila por precaução por um café de verdade. Como sou uma pessoa bem melhor e mais simpática depois de uma xícara de café, foi um ótimo começo de dia. Na saída, a garoa já me esperava e o jeito foi recorrer à capa de chuva.

Com o funicular ainda fechado, encarei a escadaria que desce o Monte de Santa Luzia. Entre a vegetação, pequenas aberturas revelavam a cidade lá embaixo e, mesmo com a garoa, parei algumas vezes para fotografar.

Já quase no final da descida, cruzei com uma peregrina que olhava para a escadaria tentando criar coragem para subir a piramba com a mochila nas costas. Com um sorriso encorajador, disse que era mais fácil do que parecia e segui meu caminho.

Histórias que o Caminho conta

Entrei no elevador da estação de trem e, quando a porta estava quase fechando, vi um senhor vindo apressado na minha direção. Coloquei a mão para impedir que fechasse. Ele entrou e me agradeceu. Respondi alguma coisa e meu sotaque foi suficiente.

— É brasileira?

Confirmei.

— De onde?

— Rio de Janeiro.

Foi tudo o que ele precisou para começar a me contar sua história.

Sua família havia emigrado para o Brasil quando ele tinha uns oito anos e se instalado no interior de Minas Gerais. Na hora pensei em O Arroz de Palma, o livro me inspirou a visita a cidade. Só que agora, em vez de ler sobre uma família portuguesa que atravessara o Atlântico em direção ao Brasil, eu escutava uma história real.

Ele contou que, aos 18 anos, decidiu voltar a Portugal. Queria rever o país onde tinha nascido e os poucos parentes e amigos que haviam ficado para trás.

— Naquela época não havia essa facilidade de informação. Não sabíamos o que acontecia em Portugal. Meus pais diziam para eu não vir, porque eu tinha 18 anos e teria que cumprir o serviço militar. Eu era jovem, e claro que ignorei os mais velhos.

Centro histórico de Viana do Castelo em Portugal
Centro histórico de Viana do Castelo

A preocupação dos pais fazia sentido. Naqueles anos, Portugal vivia a Guerra Colonial. O conflito começou em Angola, em 1961, e depois abriu frentes na Guiné e em Moçambique. Com o avanço da guerra, o regime de Salazar aumentou progressivamente a mobilização e o tempo de serviço militar.

— Quando cheguei, fui obrigado a ir para o serviço militar. Mal vi as pessoas que eu queria tanto rever. Fui para a guerra, vi muitos amigos morrerem e quase morri. Durante muitos anos me arrependi de ter voltado. Hoje vivo em paz com isso. Construí minha família, tenho netos. Meus irmãos ainda moram no Brasil, tenho sobrinhos em São Paulo e em Belo Horizonte. Meus pais morreram lá e eu nunca consegui voltar.

— Sinto muito. Mas sua história teve um final feliz também.

— Sim. Hoje eu percebo.

Então ele pareceu se lembrar de que eu estava com uma mochila enorme nas costas e tinha um Caminho para percorrer.

— Mas vá. Não quero atrasar sua caminhada.

Nos despedimos e eu segui meu caminho.

Caminho Português da Costa x Caminho do Litoral

Saí do centro histórico e continuei a caminhada. Naquele dia eu precisava prestar mais atenção ao mapa porque tinha decidido não seguir exatamente o mesmo traçado que vinha fazendo. Queria caminhar pelo litoral, acompanhando o mar até Caminha.

Quando se escuta falar em Caminho Português da Costa, é fácil imaginar que passamos o tempo inteiro beirando o Atlântico. Não é bem assim. A rota atravessa os municípios costeiros do norte de Portugal, mas alterna trechos junto ao mar com outros pelo interior. O percurso oficial passa por dez municípios entre Porto e Valença e soma quase 150 quilômetros.

Eu tinha percebido isso no dia anterior, entre Esposende e Viana do Castelo. Passei por várias cidades e freguesias litorâneas, mas durante boa parte do dia caminhei por dentro e só conseguia ver o Atlântico de vez em quando, ao longe. Dessa vez, eu queria fazer diferente. Escolhi uma variante que seguia mais próxima do litoral e que me permitiria caminhar praticamente o tempo inteiro acompanhada pelo mar. Ela é chamada pelos peregrinos de Caminho do Litoral.

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Parquinho na orla de Viana do Castelo

Seria também meu último dia ao lado do Atlântico. A partir de Caminha eu deixaria o mar para seguir em direção a Valença e, no dia seguinte, seria o rio Minho que passaria a me acompanhar. Seguir pelo litoral tinha uma desvantagem: havia trechos sem sinalização das setas amarelas e eu precisava prestar muito mais atenção à rota no celular.

Para fazer o Caminho de Santiago, não basta abrir o Google Maps e pedir uma rota a pé entre duas cidades. O aplicativo procura a maneira mais rápida de levar você de um ponto a outro, mas eu precisava seguir uma rota de peregrinação, que nem sempre coincide com o caminho mais curto. Durante toda a viagem usei o Camino Ninja, um aplicativo específico para o Caminho de Santiago que mostra o traçado das rotas e a localização do peregrino no mapa. As setas amarelas espalhadas pelo percurso serviam como confirmação de que eu estava na direção certa.

Mais tarde descobri que era perfeitamente possível olhar para um mapa, seguir exatamente a linha desenhada na tela e, ainda assim, acabar no lugar errado.

Dá para se perder olhando um mapa

Caminhei em direção à orla de Viana do Castelo achando que seria um dia fácil. Afinal, era só seguir em direção ao norte mantendo o mar do meu lado esquerdo. A orla da cidade era bem cuidada e bonita. Imagino que, em dias de sol, seja muito gostoso passear por ali.

Fui seguindo por uma espécie de calçadão até que, na altura do Forte de Areosa, começou o passadiço. Subi no forte para ver a paisagem, mas naquele trecho a costa era cheia de pedras e o mar ficava um pouco mais distante. Como o céu atrás de mim anunciava uma chuva monstruosa, não perdi tempo. Continuei caminhando na direção oposta as nuvens escuras, onde ainda conseguia enxergar uma fresta de céu claro no horizonte.

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Moinho de vento de Areosa

Passei por moinhos de vento e, dali em diante, o caminho começou a alternar passadiços e trechos de terra. Caminhava devagar, aproveitando a paisagem, os campos cobertos por margaridinhas amarelas que vinham me acompanhando desde o início da viagem, o som das ondas e o vento.

Carreço

O Caminho estava bem mais vazio do que no dia anterior. Imaginei que muitos peregrinos tivessem preferido seguir por dentro para fugir do vento frio que soprava junto ao mar. Em Carreço, na altura da Praia do Lumiar, parei em um trailer e comprei um café. Queria beber, claro, mas naquele momento segurar o copo quente entre as mãos era quase tão importante quanto a cafeína.

Na altura da Praia de Carreço, o mapa começou a me levar por algumas ruas mais internas, mas eu ainda seguia caminhando perto do mar até chegar a Montedor.

Montedor

Vi apenas um dos Moinhos de Montedor, parcialmente escondido pelas casas, e passei aos pés do Farol de Montedor. Depois, o caminho entrou na Ecovia Litoral Norte e me levou para dentro de uma floresta lindíssima, com árvores altas e o som forte do mar chegando por entre elas. Naquela altura da viagem já havia perdido o medo de caminhar pelas florestas.

Quando saí da mata, encontrei uma área de vegetação mais baixa. Havia uma estrada de terra para um lado e um passadiço para o outro. O GPS pareceu se perder e eu escolhi o passadiço. Afinal, pensei, ele não estava ali à toa. Passei por três peregrinos que caminhavam juntos. Foram as únicas pessoas que encontrei durante um bom tempo.

Forte de Montedor em Montedor em Portugal
Forte de Montedor

Aproveitei para comer uma banana enquanto tentava descobrir o que era uma construção que aparecia na paisagem. Mais tarde descobriria que era o Fortim de Montedor. Continuei caminhando num misto de prazer, porque aquele caminho era lindo, e tensão, porque eu não via absolutamente ninguém.

Trolada pelo GPS

Em determinado momento, já na altura de Afife e próximo à Praia da Arda, o mapa mostrou duas possibilidades. Eu poderia continuar pela rota marcada ou fazer um pequeno desvio que passava por uma espécie de túnel formado pelas árvores.

Como já estava preocupada com a possibilidade de estar no caminho errado, decidi não inventar. Nada de túnel de árvores. Seguiria obediente a linha que aparecia no mapa. Só que a estrada começou a desaparecer. Primeiro virou um caminho estreito. Depois comecei a pisar em mato rasteiro. Achei estranho, conferi novamente o celular e a linha dizia que eu estava exatamente onde deveria estar. Continuei.

Contornei uma árvore e saí em uma área mais aberta. Na hora tive a sensação de estar invadindo o quintal de alguém. Havia plantações mais adiante e comecei a me perguntar se aquilo pertencia a alguma propriedade particular. Mesmo assim, o GPS continuava mandando seguir. Até que parei diante de um matagal completamente fechado.

Olhei para o chão e percebi que estava muito úmido, como se houvesse água correndo por baixo ou acumulada naquela área. Talvez por instinto, talvez pela minha experiência fazendo trilhas, pensei: tem água aí. Podia ser um riacho, um pequeno lago, qualquer coisa. O que estava claro era que ninguém passaria por ali.

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Praia de Ínsua

Voltei tudo, e fui atrás do tal túnel de árvores. Andei torcendo para aquela escolha dar certo. A estrada era de terra batida e muito mais parecida com os caminhos pelos quais eu vinha passando durante todo o dia. Entrei no túnel de árvores e foi ali que percebi que finalmente estava no caminho correto.

O solo elevado por onde eu passava funcionava também como uma passagem sobre um pequeno riacho que corria por baixo. Meu instinto estava certo. Tinha água!

Entre Afife e Vila Praia de Âncora

Depois de reencontrar a rota, segui em direção ao norte e, aos poucos, o Atlântico reapareceu na paisagem. Na região de Afife, os passadiços avançavam perto da praia, entre dunas e vegetação rasteira, com o mar ao lado.

Aquele trecho estava muito mais vazio do que o Caminho que eu tinha percorrido no dia anterior. Às vezes eu passava vários minutos sem encontrar ninguém e seguia apenas acompanhada pelo barulho do mar. Mais adiante, o caminho voltou a entrar entre as árvores. Dessa vez eu atravessava a Mata Nacional da Gelfa, uma área florestal que fica na freguesia de Âncora, já no concelho de Caminha.

Foi um trecho curto, mas de mata um pouco mais fechada. Conforme eu caminhava, os galhos invadiam a trilha e pareciam me atacar, batendo nos braços e na mochila. Pelo menos, dessa vez eu tinha certeza de que estava no lugar certo, pois havia vários peregrinos caminhando.

No final, a natureza pareceu me recompensar. Saí da mata em um mirante de onde era possível ver a Praia da Gelfa e, mais adiante, o Forte do Cão, uma pequena fortificação de pedra construída no final do século XVII para ajudar na defesa daquele trecho do litoral português.

Parei alguns minutos para admirar a paisagem (belíssima) e segui a caminhada. Foi então que encontrei uma placa sinalizando que Caminha estava a oito quilômetros. Minha fome porém, não aguentaria tudo isso. Olhei para a frente e vi o contorno de uma cidade acompanhando a curva da costa e decidi que almoçaria ali. Na minha cabeça, era logo ali, bastava contornar a orla.

Conforme caminhava, fui prestando cada vez mais atenção naquela praia. O sol, que tinha passado boa parte do dia brigando com as nuvens, resolveu aparecer com força, como se também quisesse realçar a paisagem. O mar parecia estava mais bonito e, quanto mais eu me aproximava, mais enxergava o desenho da cidade à minha frente.

Abri o GPS para descobrir onde estava. Era Âncora.

Vila Praia de Âncora

A encosta começou a ficar mais alta por causa das dunas e subi novamente em um passadiço. Em alguns pontos, a areia tinha avançado sobre as tábuas e eu precisava caminhar sobre a própria duna.

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Âncora

Na altura da Praia da Duna do Caldeirão, deixei o passadiço e desci pela rua. Passei por um campo de futebol e logo entrei em outro passadiço, dessa vez para atravessar uma área de vegetação junto ao rio Âncora e chegar ao outro lado, já na orla de Vila Praia de Âncora. Foi ali que consegui ver melhor o encontro do rio com o mar.

Eu já vinha vendo o mar havia dias. Naquele dia, então, tinha passado horas caminhando ao lado dele. Mesmo assim, alguma coisa em Vila Praia de Âncora me tocou.

Talvez fosse o desenho da orla, que eu tinha visto de longe e agora finalmente alcançava. Talvez fosse a luz daquela tarde. Talvez fosse simplesmente o estado em que eu estava: cansada, com calor, com muita fome, depois de ter me perdido e caminhado muitos quilômetros. Só sei que aquela paisagem me seduziu.

Até hoje, quando penso no norte de Portugal, essa é uma das primeiras imagens que aparecem na minha cabeça.

Mas naquele momento a fome falou mais alto. Parei no Ruivo’s Vila, um restaurante envidraçado próximo à orla. Pedi uma francesinha com batatas fritas (já viram que sou fã?) e uma cerveja.

Depois de caminhar tantos quilômetros, não conseguia pensar em almoço melhor. Durante o Caminho, sempre que precisava escolher entre um sanduíche qualquer e uma francesinha, ficava com a francesinha. Já que estava em Portugal, preferia aproveitar cada oportunidade para comer algo da culinária local.

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Francesinha do Porto

O mar como guia

Segui pela orla de Vila Praia de Âncora, acompanhando a Ecovia Litoral Norte. De um lado estava o mar; do outro, casinhas, pequenos hotéis e restaurantes. De longe reconheci um casal que tinha tomado café da manhã comigo em Viana do Castelo. Pelas roupas e pelo fato de estarem sem as mochilas, imaginei que fossem passar a noite ali. Eles também me reconheceram. Acenei de longe.

— ¡Buen Camino! — gritaram de volta.

A orla de Vila Praia de Âncora é muito bonita e me pareceu também um lugar muito ligado ao surfe. Vi pranchas e estruturas na praia e não era difícil entender o motivo. As ondas eram imponentes, avançavam sobre a areia com força e pareciam exigir um pedaço da praia para elas.

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Vila Praia de Âncora

O mar chamava o tempo todo. Eu conseguia sentir aquele chamado dentro de mim, sua força e a convicção de que aquela cidade pertencia a ele.

Conforme eu caminhava, a faixa de areia foi diminuindo e dando lugar às pedras, mas a orla continuava. Havia bancos e balanços espalhados pelo caminho, posicionados de frente para o Atlântico como se alguém tivesse pensado exatamente onde uma pessoa deveria se sentar para admirar o mar e o vai e vem das ondas.

Continuei seguindo o mar. O trecho entre Vila Praia de Âncora e Moledo faz parte da Ecovia Litoral Norte e pode ser percorrido a pé ou de bicicleta. São pouco mais de dois quilômetros praticamente planos acompanhando a costa.

Moledo e a difícil escolha da praia mais bonita

O mar me guiou até Moledo e ali percebi que, se alguém me obrigasse a escolher a praia mais bonita que encontrei no norte de Portugal, eu teria um problema.

A Praia de Moledo é linda mesmo debaixo de um céu nublado. A areia, o mar, as pedras e a montanha ao fundo formavam mais uma daquelas paisagens que me faziam diminuir o passo sem perceber. Quando me dei conta, estava sentada no muro que separa a praia da orla, olhando o mar. Moledo também é conhecida pelas boas condições para a prática de surfe, bodyboard e windsurf.

Olhei para as casas de frente para o mar e pensei em como seria viver ali. Não naquela versão idealizada de morar na praia em que todos os dias amanhecem ensolarados, mas justamente naquela que eu estava vendo: céu cinza, vento, frio e o Atlântico revolto do lado de fora da janela. Ainda assim, eu gostaria de acordar e dar de cara com aquele mar todos os dias.

A essa altura, também já tinha descoberto que aqueles oito quilômetros anunciados na placa em Vila Praia de Âncora não eram tão poucos quanto pareceram quando a vi. Na hora pensei: “só faltam oito quilômetros”. Mas oito quilômetros podem ser muita coisa quando você já tem mais de vinte quilômetros nas pernas. Minhas pernas doíam, a mochila começava a pesar nas costas e Caminha parecia não chegar nunca.

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Praia de Moledo

Continuei pela orla sonhando que encontraria a cidade depois da próxima curva. Ao longe, eu via uma montanha e tinha certeza de que Caminha estaria aos pés dela. E estava mesmo. O problema é que a montanha não estava tão perto quanto meus olhos faziam parecer.

A Mata do Camarido

No final da orla, o GPS me mandou entrar por uma rua e, pouco depois, para dentro de uma floresta. Olhei o relógio. Os vinte e sete quilômetros que eu esperava caminhar naquele dia já tinham se transformado em vinte e oito e eu ainda não tinha chegado ao meu destino.

Entrei. Eu estava na Mata Nacional do Camarido, uma área florestal junto à Foz do Minho, entre Moledo e Caminha. A mata ocupa justamente a faixa entre o litoral e o estuário e se estende pela região de Cristelo, por onde eu caminhava.

Nos primeiros minutos, achei que seria apenas mais um daqueles pequenos trechos de floresta que eu atravessava durante o Caminho. Depois de uns dez minutos caminhando, percebi que a mata era enorme e tinha várias saídas. Algumas placas pelo caminho indicavam direções diferentes e uma japonesa que vinha atrás de mim decidiu seguir por uma delas, mais ou menos na metade da floresta.

Eu não quis arriscar. Depois de me perder mais cedo, estava cansada demais para experimentar outro caminho. Além disso, minha água tinha acabado. Preferi obedecer ao GPS e continuei andando. Acho que percorri uns dois quilômetros por dentro da mata até finalmente ver o telhado de uma casa entre as árvores. O primeiro sinal de que a floresta estava chegando ao fim.

Saí em uma pequena rua cercada de casas e o GPS mandou virar à esquerda. Virei. E a paisagem se abriu diante de mim.

Da floresta para uma pintura

Primeiro vi a montanha. Depois, uma pequena praia diante de uma água quase parada. Uma mulher molhava os pés enquanto seu cachorro corria pela areia. Depois de passar o dia inteiro acompanhando a força do Atlântico, estranhei aquela água tão calma. Uma placa me avisou onde eu estava: Praia da Foz do Minho. Caminha.

Só então entendi que aquela água calma era o rio Minho. Olhei adiante e vi Caminha contornando sua margem, com um passadiço seguindo em direção à cidade. Do outro lado da água estavam as montanhas da Galícia. O rio, que naquele trecho marca a fronteira entre Portugal e Espanha, já estava próximo de desembocar no Atlântico.

Eu estava exausta e morrendo de sede, mas parei. Aquela chegada tinha alguma coisa de irreal. Parecia que eu tinha saído da floresta e entrado em uma pintura. Talvez aquela paisagem tenha me parecido ainda mais bonita porque significava que eu finalmente tinha chegado a Caminha. Ou talvez ela fosse simplesmente bonita daquele jeito.

Provavelmente as duas coisas. Abri o Google Maps e digitei apenas o endereço do hotel. Eu queria chegar o mais rápido possível. Segui pelo passadiço acompanhando o rio em direção à cidade e, quando finalmente parei diante da porta do hotel, olhei a distância percorrida naquele dia. Trinta e três quilômetros.

Os vinte e sete quilômetros que eu imaginava caminhar tinham virado trinta e três por conta da decisão de seguir pelo litoral, os desvios e as vezes em que me perdi.

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Pôr do sol no rio Minho, em Caminha, com as montanhas da Galícia do outro lado.

Caminha

Depois de chegar ao hostel, beber toda a água que vi pela frente e descansar um pouco, ainda precisava resolver uma questão prática: comprar comida. Segundo o Google Maps, havia um Pingo Doce na marginal de Caminha.

Comprei meu jantar, coisas para preparar um sanduíche para o dia seguinte, uma banana e, depois de caminhar tantos quilômetros, achei que também merecia alguns doces portugueses. Escolhi uma caixa de queijinhos de amêndoa com ovos-moles e outra de ovos moles de Aveiro. Se teria que caminhar outros trinta quilômetros no dia seguinte, pelo menos faria isso abastecida de açúcar.

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Igreja Matriz de Caminha

Saí do mercado e entrei na Rua Direita, logo ao lado, disposta a aproveitar a luz do fim de tarde para conhecer Caminha sem rumo. Na primeira transversal, encontrei um nome ainda mais curioso: Rua do Lobisomem. Só depois descobri que ele vem de uma antiga lenda local sobre um homem condenado a se transformar em lobisomem e que teria sido libertado da maldição naquele pedaço da vila.

Mais adiante, cheguei às antigas muralhas de Caminha e à Igreja Matriz. Do alto da muralha, fiquei alguns minutos olhando o rio Minho e o sol desaparecer atrás das montanhas do lado espanhol. Depois de um dia inteiro de caminhada, aquela era mais uma paisagem que me emocionava. Agradeci pela oportunidade de estar ali e, depois, segui em direção ao centro histórico.

Entre ruas estreitas e construções antigas, encontrei a Torre do Relógio, uma das estruturas que restaram das antigas fortificações. O relógio que hoje dá nome à torre foi instalado em 1673, mas a origem da torre é anterior: ela integrava o sistema defensivo e marcava uma das entradas do antigo núcleo amuralhado.

Atravessei a antiga porta sob a torre e cheguei ao Terreiro de Caminha, hoje Praça Conselheiro Silva Torres. No centro estava um grande chafariz de pedra e, ao redor, edifícios históricos dividiam espaço com cafés e restaurantes. Os bares começavam a ganhar movimento, mas eu estava cansada e ainda precisava voltar para o hostel. Antes de ir embora, olhei para trás uma última vez. Os últimos raios de sol apareciam por trás do chafariz e iluminavam os prédios antigos ao redor da praça. É uma das imagens mais bonitas que guardo de Caminha.

Dia 5: De Caminha para Valença

Acordei cedo, mas o hostel já estava praticamente vazio. Em Caminha, os peregrinos se dividem. Uma parte atravessa o rio Minho de barco para A Guarda e continua pelo litoral da Galícia. Outra segue por terra em Portugal, acompanhando o Minho até Valença, para só então atravessar a fronteira a pé e entrar na Espanha por Tui.

Há quem defenda que existe uma rota mais correta do que a outra. Eu não penso assim. Não existe um Caminho mais certo ou errado, existe o Caminho que você escolhe fazer. Eu queria chegar à última cidade portuguesa. Meu coração pedia para só deixar Portugal no último momento possível, então escolhi seguir até Valença.

A cerca de cento e vinte quilômetros de Santiago de Compostela, Valença também é um dos pontos de partida de quem faz apenas a parte final da peregrinação — para obter a Compostela é preciso percorrer pelo menos cem quilômetros a pé.

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Ponte ferroviária da Linha do Minho em Caminha

Antes de partir, fui tomar café da manhã e sentei ao lado da Maggie, uma americana de Seattle que sonhava havia anos em fazer o Caminho, mas nunca conseguia por causa do trabalho. Esse ano, resolveu pedir demissão e finalmente realizar o sonho.

— Eu sei que parece loucura, mas estou tão feliz. Meu noivo vai me encontrar em Santiago e depois vamos voltar para Portugal. Quando eu voltar para casa, procuro um emprego novo.

Disse que ela estava certíssima. Às vezes é preciso aproveitar a vida enquanto ainda podemos fazer loucuras desse tipo.

Quando saí do hostel, havia um senhor sentado na porta fumando. Ele perguntou se eu pegaria o barco para atravessar o Minho. Respondi que não, que seguiria para Valença. Então me ensinou um caminho mais rápido para sair de Caminha: em vez de atravessar novamente o centro histórico, como indicava o GPS, deveria seguir até o rio Coura e acompanhar sua margem.

Segui a dica e logo cheguei à Avenida Camões, uma rua arborizada junto ao Coura. Foi ali que encontrei a ponte ferroviária da Linha do Minho, uma enorme estrutura metálica construída próxima à foz do rio. Mais adiante, atravessei o Coura pela ponte rodoviária e segui em direção a Seixas. Agradeci mentalmente pela dica, pois além de encurtar o trajeto, o senhor ainda tinha me levado a um lugar que eu provavelmente não conheceria.

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Capela de São Bento de Seixas

Em Seixas, cheguei ao Largo de São Bento, uma praça charmosa, com chafariz e um pequeno coreto. Entrei na Capela de São Bento para carimbar minha credencial e aproveitei a parada para olhar o mapa.

Caminhando às margens do Minho

Decidi mudar um pouco o Caminho. As setas amarelas me levariam pelas ruas do interior, mas vi no mapa que poderia continuar durante algum tempo acompanhando o rio e encontrar novamente a rota mais adiante. Depois de passar o dia anterior seguindo o Atlântico, gostei da ideia de começar aquele dia acompanhada pelo Minho.

Fui caminhando devagar pela marginal. Perto do Cais de São Bento, observei alguns pescadores desembaraçando suas redes e um rapaz remando de caiaque. Continuei seguindo a água até precisar voltar para dentro das ruas, na altura da pequena Capela de São Sebastião, escondida numa ruazinha.

Cais de São Bento em Seixas em Portugal
Cais de São Bento e o rio Minho

Não fiquei muito tempo entre as casas. Logo as setas amarelas me mandaram novamente para dentro de uma floresta. Aquela altura eu já começava a perceber uma lógica no Caminho: muitas vezes as matas apareciam quando a alternativa seria seguir pela beira de uma estrada. Em vez dos carros e do asfalto, as setas desviavam os peregrinos por antigos caminhos entre árvores, campos e pequenas localidades.

Vieram novamente as ruas de pedra, as subidas e descidas e uma sucessão de pequenas freguesias: Seixas, Lanhelas, Gondarém, Loivo… Em alguns trechos, eu subia tanto que conseguia ver o rio Minho lá embaixo. Ele aparecia entre as árvores e depois desaparecia novamente conforme eu entrava na mata. Em outros pontos, a paisagem se abria sobre campos, com o rio ao fundo e a Galícia do outro lado.

Vila Nova de Cerveira

Ao chegar em Vila Nova de Cerveira decidi parar para comer. Escolhi um café logo na entrada da cidade. Quando cheguei, alguns peregrinos estavam terminando de se arrumar para seguir viagem. Depois que eles foram embora, fiquei sozinha e a dona, uma mulher que devia ter mais ou menos a minha idade, puxou assunto.

Quando percebeu que eu estava fazendo o Caminho sozinha, comentou que cada vez mais mulheres passavam por ali sem companhia. Disse que achava aquilo ótimo, que viajar sozinha dava às mulheres uma sensação de liberdade muito particular, principalmente em um mundo em que estavam sempre tentando tirar nossos direitos.

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Vila Nova de Cerveira

Ela também gostava de viajar e sonhava em conhecer o Rio de Janeiro, mas contou que naquele momento era difícil sair porque não tinha com quem deixar o café. Depois comentou que um grupo de brasileiros tinha passado por ali no dia anterior. Respondi que até aquele momento não havia encontrado nenhum, mas foi só eu terminar a frase para entrar uma brasileira, também sozinha, perguntando se o café tinha carimbo para a credencial de peregrina.

Uns vinte minutos depois, voltei ao Caminho e atravessei o centro de Vila Nova de Cerveira. Eu nunca tinha ouvido falar naquela cidade e fiquei encantada. Ruas estreitas, construções antigas, restaurantes e, no meio de tudo, o castelo que começou a ser construído no século XIV, durante o reinado de D. Dinis, para ajudar a proteger a fronteira portuguesa junto ao Minho.

Eu queria ter tido mais tempo para ficar ali, mas ainda estava longe de Valença. Continuei caminhando e, já na saída da cidade, encontrei novamente a brasileira do café. Ela me perguntou sobre a direção do Caminho e contou que estava fazendo a peregrinação sem GPS e sem usar o celular para se orientar. Também seguiria para Valença, mas ainda não tinha hospedagem. Eu sabia que aquilo era um problema, pois quando fiz minha reserva, tinham me avisado que era o último quarto disponível na cidade. Ela disse que tentaria uma vaga no albergue público e seguimos caminhando juntas.

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Castelo de Vila Nova de Cerveira

Daquele ponto em diante, prestei menos atenção no caminho. Depois de tantos dias caminhando sozinha, agora tinha alguém ao meu lado e passamos boa parte do trajeto conversando. Talvez por isso os quilômetros tenham parecido passar mais rápido.

Meu corpo costumava começar a reclamar depois dos quinze quilômetros, mas naquele dia atravessei a maior etapa de toda a viagem quase sem perceber a distância. Quando Valença finalmente apareceu, eu tinha completado outros trinta e três quilômetros.

Valença

Quando reservei meu hotel em Valença, o rapaz me avisou que ele ficava dentro da fortaleza. Não entendi muito bem o que aquilo significava e também não achei que fosse uma informação relevante.

Chegamos a Valença e, à primeira vista, ela parecia uma cidade como tantas outras pelas quais eu tinha passado, só que maior. Seguimos caminhando até atravessarmos um dos portais da fortaleza e sairmos em um centro histórico apinhado de gente. Havia lojas de lembrancinhas, restaurantes, cafés e turistas andando de um lado para o outro. Era, de longe, a cidade mais turística que eu tinha encontrado no Caminho até ali.

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Vale do Minho visto da Fortaleza de Valença

Fomos primeiro ao meu hotel, onde eu poderia deixar a mochila e a minha nova colega tentaria encontrar uma vaga. A recepcionista confirmou o que eu já sabia: a cidade estava lotada. Ela poderia continuar caminhando até Tuí e tentar encontrar uma hospedagem do outro lado da fronteira ou, como meu quarto tinha uma cama de casal, poderia ficar comigo. Eu mal conhecia aquela mulher, mas também não ia deixá-la sem ter onde dormir. Dividimos o quarto naquela noite.

Depois do banho, saí para comprar meu jantar e alguma coisa para comer durante o Caminho no dia seguinte. Na volta, aproveitei para passear pelo centro histórico. Já perto do hotel, vi algumas pessoas tirando fotos em uma área aberta junto à muralha e fui descobrir o que havia ali. Cheguei perto do muro e olhei para baixo.

Foi só naquele momento que entendi o que o rapaz queria dizer quando falou que meu hotel ficava “dentro da fortaleza”.

Caminho Português da Costa por Valença
Fortaleza de Valença

Quando atravessei aquele primeiro portal, achei que estava apenas passando pelas ruínas de uma antiga fortaleza. Só naquele momento entendi que não. Aquela cidade inteira que eu tinha acabado de atravessar estava dentro dela. As ruas, as casas, os restaurantes, as lojas, meu hotel. Tudo cercado por muralhas.

A Fortaleza de Valença ocupa o alto de uma colina junto ao rio Minho, exatamente em frente a Tui, na Galícia. Durante séculos, ela foi um dos pontos estratégicos da defesa da fronteira portuguesa com a Espanha. A estrutura que existe hoje foi sendo transformada ao longo do tempo e ganhou sua configuração abaluartada principalmente nos séculos XVII e XVIII, durante e depois das guerras entre Portugal e Espanha.

Antes de atravessar a fronteira

No dia seguinte, me despedi da minha colega de quarto e saí cedo em direção à Espanha. O GPS aparentemente decidiu que, antes de me deixar ir embora, eu ainda precisava conhecer mais um pouco da Fortaleza de Valença.

Àquela hora da manhã, o centro histórico estava completamente vazio. Fui caminhando pelas ruas de pedra e passei por portais e túneis abertos nas muralhas, até entrar em caminhos cercados pelas enormes estruturas de pedra da fortaleza. Depois da surpresa da noite anterior, agora eu conseguia finalmente entender a dimensão do lugar que tinha atravessado sem perceber quando cheguei à cidade.

Valença também tinha amanhecido florida. Havia flores nas portas das casas, instalações espalhadas pelas ruas e até estruturas inteiras cobertas por arranjos. Só depois descobri que tinha chegado justamente durante a Valença Flor de Maio, uma festa que revive a tradição das Maias.

Continuei seguindo as setas até finalmente sair da fortaleza e começar a caminhar em direção a Tuí. Entre Portugal e Espanha estava o rio Minho e, sobre ele, a Ponte Internacional Valença-Tuí. A ponte metálica foi inaugurada em 25 de março de 1886 e, desde então, liga as duas cidades — e os dois países — sobre o Minho. Sua estrutura tem dois níveis: por cima passam os trens e, no tabuleiro inferior, carros e pedestres.

Valença e a Ponte Internacional Valença-Tuí
Valença e a Ponte Internacional Valença-Tuí.

A despedida de Portugal

Foi por ali que atravessei a fronteira a pé. Do outro lado, as placas me davam as boas-vindas à Galícia e à Espanha. Depois de dias caminhando pelo norte de Portugal, eu tinha finalmente saído do país. O Caminho continuou por uma rua que margeava o rio, passando em frente ao clube de remo de Tuí. Olhei para trás uma última vez.

Do outro lado do Minho, Valença aparecia inteira sobre a colina. Dali eu finalmente conseguia ver a cidade dentro da fortaleza, cercada pelas muralhas, com a Ponte Internacional ligando as duas margens.

Mas, quando olhei para Valença, senti meu coração se encher de tristeza por me despedir de Portugal. Eu não queria partir. Pela primeira vez, senti que pertencia um pouco àquele país que vivi na adolescência. Era estranho perceber que só agora, tantos anos depois de ter morado ali, eu me sentia em casa em Portugal.

Lembrei dos amigos que reencontrei no Porto e de todas as pessoas que cruzaram meu Caminho ao longo daqueles cinco dias. Do homem na capela de São Sebastião que, sem perceber, acalmou meu coração. Das conversas, das histórias que ouvi e de tanta gente que apareceu pelo meu caminho. E não foram só as pessoas. Ao longo daqueles cinco dias, fui me encantando também pelo litoral norte de Portugal, pela beleza dos lugares por onde passei e pela sensação de que ainda havia muito para conhecer.

o que fazer em Valença em Portugal
Valença: a cidade dentro da Fortaleza

Sem perceber, enquanto seguia as setas amarelas, eu tinha criado tantas memórias boas que agora estava na Espanha, olhando para Portugal e chorando porque não queria ir embora. Fiquei mais alguns instantes olhando Valença do outro lado do Minho. Então me despedi de Portugal, virei as costas e continuei.

Meu Caminho ainda seguiria por mais seis dias pela Galícia, até Santiago de Compostela. Mas essa parte da história fica para outra hora.

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Beatriz Arous
Beatriz Arous
Curiosa, sonhadora, trilheira aprendiz, carioca orgulhosa da sua gente, Bia se aventura pelo mundo desde pequena. Apaixonada por museus, vinhos e livros, ela resolveu seguir suas grandes paixões: escrever e viajar. Bia já morou em Belém, no Porto, em Portugal e em Salvador, e cada lugar deixou marcas inesquecíveis no seu coração. Atualmente, ela mora no Rio de Janeiro. Com 18 países e 16 estados brasileiros na bagagem, suas viagens favoritas sempre incluem um toque cultural e gastronômico. Bia é editora assistente do Ideias na Mala, onde compartilha roteiros detalhados e dicas práticas para inspirar os leitores a viajarem mais e melhor.

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