Afroturismo no Rio de Janeiro: roteiros pela Pequena África e Madureira
O afroturismo no Rio de Janeiro é um convite para conhecer a cidade pelas histórias, memórias e contribuições da população negra. Na Pequena África e em Madureira, ruas, monumentos e espaços culturais ajudam a contar essa história, que também vive no samba, no jongo, na gastronomia e nas tradições locais.
Fiz dois passeios guiados por essas regiões e recomendo incluir essas experiências na sua viagem — ou aproveitar para conhecer melhor o Rio, se você mora por aqui. Ouvir as histórias durante as caminhadas me fez olhar para lugares conhecidos de outro jeito e descobrir personagens que merecem muito mais espaço na nossa memória.
Neste post, compartilho os dois roteiros que fiz, minhas impressões e as informações práticas para você participar dos passeios.

Afroturismo no Rio de Janeiro: 2 roteiros que fiz e recomendo
Esses passeios abordam a violência da escravidão, mas também nos aproximam de histórias de resistência, pertencimento, música e conquistas. Foi uma das coisas que mais gostei: conhecer personagens e tradições que ajudaram a formar o Rio e continuam presentes no cotidiano da cidade.
Fiz os dois roteiros abaixo em dias separados e recomendo reservar tempo para cada um:
- Pequena África: uma caminhada pela região portuária, passando por lugares como o Cais do Valongo, a Pedra do Sal e o Largo de São Francisco da Prainha. O passeio que fiz durou cerca de 3 horas.
- Herança Africana em Madureira: um percurso pelo bairro para conhecer histórias ligadas ao samba, ao jongo e à cultura negra carioca. O tour que fiz durou aproximadamente 2 horas.
A seguir, conto como foi cada experiência e como você pode participar.
1 – Pequena África
A Pequena África, na Zona Portuária do Rio, reúne lugares fundamentais para conhecer a história e a cultura negra da cidade. O nome é atribuído ao sambista e artista plástico Heitor dos Prazeres e identifica uma região marcada pela presença africana e por seus descendentes.
Em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, a prefeitura criou o Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana, conectando espaços de memória como o Cais do Valongo, a Pedra do Sal e o Cemitério dos Pretos Novos.
Eu fiz o passeio com a Sou+Carioca. Foram cerca de 3 horas de caminhada, ouvindo histórias que deram outro significado aos lugares por onde passávamos. A guia abordou a chegada dos africanos escravizados, a violência que sofreram, as lutas após a abolição e a formação do samba carioca. Também conhecemos as trajetórias de personagens como Tia Ciata e Mercedes Baptista.

Foi uma aula de história do Brasil a partir do olhar negro. Para mim, acompanhar as explicações fez toda a diferença: os lugares ganharam contexto, e a caminhada foi muito além de visitar monumentos.
Como participar do tour pela Pequena África
Eu fiz o passeio com a Sou+Carioca e gostei muito do trabalho delas. Você pode reservar o tour guiado pela Pequena África pelo GetYourGuide. Na hora de reservar, selecione a opção em português e confira o ponto de encontro e o horário escolhido.
Os principais pontos do tour são:
Morro da Conceição
O Morro da Conceição guarda um Rio que muita gente ainda não conhece: ladeiras, sobrados antigos e ruas que preservam marcas da ocupação histórica da região. Caminhar por ali com a guia ajuda a perceber como esse pedaço da cidade reúne histórias de diferentes épocas e populações.

Respeite quem mora por aqui: no Morro da Conceição, há um trecho com uma escadaria pintada com a bandeira do Brasil que chama a atenção e rende fotos lindas. Mas lembre que esse também é um lugar de moradia. Na hora de fotografar, evite falar alto, colocar música ou bloquear a passagem. Não entre em portas, escadas ou quintais particulares sem autorização. Dá para fazer sua foto com calma e respeitar a rotina de quem vive ali.
Largo de São Francisco da Prainha
No pé do Morro da Conceição, o Largo da Prainha é uma das paradas mais gostosas do passeio. A paisagem mudou com os aterros da região portuária, mas o nome ainda lembra a pequena praia que existia por ali.
A estátua no largo homenageia Mercedes Baptista, a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Bailarina e coreógrafa, ela foi uma das principais referências na construção do balé afro-brasileiro.
Além da história, o largo tem bares e mesas ao ar livre. Ao terminar o tour, vale voltar para almoçar ou tomar uma cerveja gelada, daquelas servidas na garrafa e mantidas no isopor! Duas opções famosas na região são:
- Bafo da Prainha, no próprio largo.
- Angu do Gomes, na Rua Sacadura Cabral.

Pedra do Sal
Com sua escadaria talhada na rocha, a Pedra do Sal é um dos lugares mais importantes para conhecer a memória negra do Rio. Sua história está ligada ao trabalho no porto, à presença de comunidades negras, às religiões de matriz africana e à formação do samba carioca.
Durante o passeio, conhecemos esse lugar pelo seu significado histórico. Para quem quiser voltar em outro momento, as rodas de samba são uma oportunidade de encontrar a região cheia de música e movimento. Confira a programação no @pedradosaloficial antes de ir, pois os dias e horários podem mudar.

Jardim Suspenso do Valongo
Inaugurado em 1906, durante as reformas do prefeito Pereira Passos, o Jardim Suspenso do Valongo fazia parte de um projeto de remodelação e embelezamento da cidade, inspirado em referências europeias.
No tour, a guia nos explicou como essas transformações também encobriram marcas da escravidão na região. O entorno do Valongo concentrava o comércio de pessoas escravizadas e locais onde elas eram mantidas antes de serem vendidas.
Ouvir essa parte da nossa história foi bem difícil. Me fez refletir sobre como essas pessoas eram tratadas sem nenhuma dignidade e sobre quantas de suas histórias ficaram esquecidas. Foi uma das explicações que mais me marcaram durante a caminhada.

Cais do Valongo
Construído em 1811, o Cais do Valongo foi um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Segundo a UNESCO, estima-se que até 900 mil pessoas tenham passado por ali — um número que dá dimensão da violência desse capítulo da nossa história.
Em 1843, o local foi remodelado para receber Teresa Cristina, que chegava ao Brasil para se casar com D. Pedro II, e passou a ser chamado de Cais da Imperatriz. Mais tarde, foi encoberto pelos aterros da região portuária.
Os vestígios foram reencontrados em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, junto com objetos que ajudam a compreender a presença africana no Rio. Em 2017, o sítio arqueológico foi reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, por sua importância como testemunho material do tráfico de africanos escravizados.

Onde comer na Pequena África do Rio de Janeiro
Quando nosso tour terminou, algumas pessoas do grupo resolveram almoçar juntas. Fomos ao Odara Gastrobar Urbano, onde comi um pastel de costela e uma feijoada deliciosos, mas infelizmente ele fechou. Foi uma ótima maneira de terminar o passeio, conversando sobre tudo o que tínhamos acabado de conhecer!
Para planejar seu almoço na região, estas são ótimas opções:
- Casa Omolokum: na Rua Argemiro Bulcão, 51, junto à Pedra do Sal, une gastronomia e cultura afro-brasileira, com receitas inspiradas na ancestralidade africana e na comida de terreiro. É uma opção para continuar explorando os sabores e as histórias da Pequena África depois da caminhada. Confira a programação e o cardápio pelo Instagram antes de ir.
- Café Tero: na Ladeira Felipe Neri, 11, na subida do Morro da Conceição, é uma opção para almoçar ou fazer uma pausa para café e sobremesa. A casa tem um ambiente acolhedor e a comida é deliciosa. Fica perto da Praça Mauá (o acesso envolve ladeira e escadas).
- G&G Gourmet: na Rua Sacadura Cabral, 55, é uma escolha que combina com a proposta do passeio. Comandado por Georgia Gomes, o restaurante é conhecido pelo bobó da Geórgia e por sua ligação com a gastronomia africana.
- Bafo da Prainha: no Largo de São Francisco da Prainha, 15, é uma alternativa para quem prefere terminar a caminhada com petiscos e uma cerveja, aproveitando o movimento do largo.
- Chilito Cocina Mexicana: na Ladeira Felipe Neri, 11B, no Morro da Conceição, é uma opção para quem quer variar depois da caminhada. A casa é especializada em comida mexicana, com tacos, guacamole e opções vegetarianas. Fica pertinho do Café Tero e da escadaria, facilitando a parada durante o passeio pela região.

Dida Bar e Restaurante: uma dica fora do circuito
O Dida Bar e Restaurante merece entrar nos seus planos para continuar explorando a cultura africana pela gastronomia. A casa funciona na Rua do Lavradio, 192, na Lapa — portanto, exige um deslocamento depois do tour.
Eu conheci o restaurante no endereço antigo e gostei muito da experiência. Na ocasião, estava acontecendo o Comida di Buteco: provei dadinhos de tapioca com ingredientes de feijoada e um drink chamado Entre Palhas, feito com vodka infusionada com pipoca e caramelo salgado. Tanto a comida quanto o drink estavam muito bons!
Na nova casa, confira o cardápio e a programação pelo Instagram. É uma opção para outro almoço ou para prolongar o passeio pelo Centro com um jantar.


2 – Herança Africana em Madureira
Quem gosta de samba provavelmente já ouviu “Meu Lugar”, de Arlindo Cruz. A música celebra Madureira, seus personagens e suas tradições — e é uma ótima inspiração para conhecer esse pedaço do Rio!
Madureira respira cultura negra, samba e jongo. Nesse passeio, conhecemos histórias que ajudam a entender a importância do bairro para a cidade, muito além das famosas quadras da Portela e do Império Serrano.
Eu fiz o tour com a Sou+Carioca, a mesma empresa do meu passeio pela Pequena África, e gostei muito do trabalho delas. O percurso que fizemos durou aproximadamente 2 horas, a pé. Consulte a programação diretamente com a empresa para confirmar as próximas saídas.
Outra opção é o Tour Cultural em Madureira: Samba, Fé e História, disponível no Airbnb. Conheço as guias que conduzem essa experiência, que passa por lugares como o Viaduto de Madureira, o Império Serrano e o Mercadão, conectando a história do bairro às suas manifestações culturais. O passeio dura aproximadamente 2h45; confira o idioma, as datas e o ponto de encontro na reserva.

Logo no início, a guia contou sobre a formação do bairro, seu passado rural e a origem do nome Madureira. Também conversamos sobre como as reformas urbanas e a remoção de moradias populares do Centro contribuíram para o deslocamento da população negra para os subúrbios cariocas.
Foi muito interessante conhecer essas histórias enquanto caminhávamos. O passeio conecta lugares e personagens às tradições que continuam vivas no bairro, das escolas de samba ao Jongo da Serrinha, uma importante referência na preservação dessa expressão cultural afro-brasileira.
Os principais pontos do tour são:
Viaduto Negrão de Lima
Nosso tour começou embaixo do Viaduto Negrão de Lima, mais conhecido como Viaduto de Madureira. Entre os grafites e os espaços de encontro, fomos conhecendo histórias que ajudam a entender a identidade do bairro.
Os desenhos nas pilastras abordam a cultura local, o jongo, as religiões de matriz africana e experiências da população negra. Com as explicações da guia, percebemos detalhes e significados que provavelmente passariam despercebidos numa caminhada por conta própria.
Por ali também acontece a Feira das Brecholeiras, conhecida pelas vendas de roupas e acessórios de segunda mão aos sábados. A iniciativa reúne empreendedoras e movimenta a economia local. Se quiser aproveitar para garimpar, confira a programação antes de ir!

Praça das mães
Conhecida como Praça das Mães, essa parada tem uma escultura de uma mulher com uma criança no colo. Durante o passeio, conhecemos um pouco da relação desse espaço com a vida cotidiana de Madureira.
Além da estátua, a praça é um ponto de encontro, com opções de lanches e bebidas no entorno. Vale observar o movimento e descobrir esse lado do bairro, que vai além dos lugares mais famosos.

Baile Charme
Quem já ouviu falar de Madureira provavelmente conhece a fama do Baile Charme do Viaduto. Com influências do soul, do funk e do R&B, a música e as coreografias fazem parte de uma importante expressão da cultura negra carioca.
Em 2013, o baile foi reconhecido pela prefeitura como bem cultural de natureza imaterial. No tour, conhecemos sua história; participar de uma noite de baile é outro programa, que você pode combinar com a viagem. Consulte a agenda, os horários antes de ir.

Escola de samba Império Serrano
Fundado em 1947 por dissidentes da escola Prazer da Serrinha, o Império Serrano começou sua trajetória conquistando quatro campeonatos consecutivos, de 1948 a 1951.
Sua história reúne grandes nomes do samba, como Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Dona Ivone Lara, que se tornou a primeira mulher a assinar um samba-enredo e foi conhecida durante sua longa vida como a Rainha do samba.
Conhecer a escola durante o passeio ajuda a entender como sua trajetória se conecta à Serrinha, aos moradores e à cultura de Madureira.

Escola de samba Portela:
Fundada em 1923, a Portela é uma das escolas mais tradicionais do carnaval carioca. Sua história está profundamente ligada a Madureira e Oswaldo Cruz, com personagens como Paulo da Portela, Tia Surica, Monarco e tantos outros que ajudaram a construir seu legado.
Mais do que conhecer uma quadra, essa parada é uma oportunidade para entender a relação da escola com a comunidade e com a vida cultural da região.
Minha dica: mesmo que você não consiga fazer o tour, acompanhe a programação das escolas. Feijoadas, rodas de samba, shows e ensaios são ótimas oportunidades para conhecê-las em outro momento.
Perto do carnaval, a agenda fica especialmente movimentada. Confira as datas e a venda de ingressos nos canais oficiais. Para os ensaios técnicos na Sapucaí, consulte também a programação divulgada para aquele ano. O ensaio técnico das escolas na Marquês de Sapucaí são abertos aos público e gratuitos.
Janeiro e fevereiro não há eventos devido a proximidade do carnaval e os constantes ensaios, contudo você pode assistir os ensaios que as escolas fazem na rua nos arredores da quadra. mas chegue cedo porque eles ficam lotados.


Parque Madureira:
O Parque Madureira Mestre Monarco reúne áreas verdes, espaços para praticar esportes, pistas de skate e ciclovias. A Praça do Samba, com símbolos da Portela e do Império Serrano, reforça a ligação do parque com a cultura do bairro.
Outro destaque é o baobá, plantado em 2020 por integrantes da Portela em uma ação ligada ao Dia da Consciência Negra. Durante o passeio, conhecemos sua relação com a ancestralidade e sua importância simbólica em diferentes culturas africanas.


No final do tour, resolvemos ficar um pouco mais para curtir os bares do parque e os sambas que estavam rolando. Escolhemos um barzinho com música ao vivo para tomar uma cervejinha e conversar. Foi uma delícia terminar o passeio assim — recomendo reservar um tempinho para aproveitar o bairro sem pressa!
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pessimo. não traz informações de como participar ha horas tentando
Olá Virginia,
No início de cada tour eu indico as empresas que fazem o passeio.
Os tours funcionam de acordo com a demanda, não tem data e nem horários fixos. Basta você clicar no nome da empresa que você será direcionado para a página dela e poderá ver a disponibilidade do tour direto com eles.
Bom passeio.