250 anos dos EUA: viagem de carro por 13 Estados

“Quantos estados será que a gente consegue cruzar nas próximas cinco semanas?”, ele abriu uma cara de desconfiado e eu expliquei: os Estados Unidos vão completar 250 anos. Que tal a gente celebrar a ocasião e, claro, as férias de verão com uma road trip por vários estados diferentes? O sorriso que ganhei de resposta foi a motivação que eu precisava para transformar uma ideia muito louca em realidade.

Animar as crianças foi relativamente fácil; já o marido não estava tão convencido de que seria uma boa ideia cruzar o país sozinha com os dois pequenos, usando o carro (novíssimo) dele — o meu é elétrico e tornaria a logística da viagem bem mais desafiadora. Dei meus pulinhos: escolhi bem as paradas, casei os destaques da viagem com as férias dele e montei um roteiro irrecusável. Michigan, um estado que há anos está na nossa lista dos sonhos, seria nosso foco e o ponto mais distante de casa. Teríamos um caminho de ida e de volta recheado de paradas e, claro, de histórias.

Chicago no Pôr do sol
Curtindo o pôr do sol na nossa primeira noite em Chicago

Foram 13 estados, 9 parques e monumentos nacionais, 3 Grandes Lagos e mais de 9.500 quilômetros rodados em uma viagem que nos mostrou várias facetas lindas e pouco conhecidas dos Estados Unidos. Vimos cânions coloridos, desenterramos dinossauros e fósseis ancestrais, nos banhamos em águas quentes que borbulham do solo e águas geladas dos maiores lagos do mundo, contemplamos montanhas sagradas para os povos nativos e caminhamos por desertos ricos em biodiversidade.

I-80, a estrada que nos acompanhou desde a saída da Califórnia até a chegada em Chicago foi conduzindo uma jornada que não parava de se transformar, e de nos surpreender.

Do azul infinito que espelha as montanhas em Lake Tahoe ao marrom terroso do deserto de Nevada, das cordilheiras que recortam Utah aos morros avermelhados que abrem ala para o deserto terroso na fronteira do estado. Suspiramos com as montanhas que atravessam o Colorado, atravessamos pradarias e campos de cultivo no Nebraska e em Iowa, vimos cidades grandes tomando forma de longe e pequenos vilarejos recortando a estrada —e derrubando nossa velocidade – de forma despretensiosa. Uma dança surreal paisagens e um mundo de possibilidades para viajantes curiosos.

As Needles - ou agulhas - no Custer State Park na Dakota do Sul
As Needles – ou agulhas – no Custer State Park na Dakota do Sul

Um quebra-cabeça de cidades e possibilidades

Com a viagem definida, começou o difícil desafio de montar um roteiro factível e divertido. Tínhamos duas datas pré-determinadas: o dia de chegar em Chicago (início das férias do Gu) e o dia máximo de voltar para casa, definido pela final da Copa do mundo (com ou sem Brasil na jogada, queríamos ver a partida juntos).

Cloud Gate em Chicago
Cloud Gate em Chicago e nós na torcida para o Jogo da Copa

A ideia era deixar a viagem viável para mim – eu nunca havia dirigido tantos quilômetros nem tantos dias seguidos sozinha – e divertida para as crianças. Assim tentei limitar o tempo ao volante em 3 a 4 horas por dia, com exceções nos dias de saída e chegada.

O segundo critério – e o mais desafiador – foi priorizar destinos que ainda não conhecíamos e paradas que há tempos estavam na lista dos sonhos, como Badlands e Mt. Rushmore na Dakota do Sul. Foi bem difícil resistir à tentação de fazer paradas em Moab (que amamos), na divertida Denver e na região de Rocky Mountains – e, no caminho de volta, em Yellowstone e Grand Teton.

Além de repetidos, todos eles acrescentariam algumas horas de estrada a um roteiro que já era longo. Por outro lado, sair do óbvio nos deu a chance de conhecer pedacinhos do país que passam longe dos guias turísticos e que adicionaram camadas bem interessantes ao nosso repertório de viagens. Atravessamos lugares lindíssimos que há meses não sabíamos da existência.

Sleeping Bear Sand Dunes no Michigan
Lake Michigan no Sleeping Bear Sand Dunes – as cores da água são surreais

Para facilitar meu planejamento, dividi a viagem em 3 pedaços: o caminho da Califórnia a Chicago sem o Gu, o trecho que faríamos com a família completa de Chicago a Rapid City e a volta pra casa. De Truckee (região de Lake Tahoe), onde comecei a viagem, até Chicago foram cerca de 30 horas de estrada. Já de Rapid City para a baía de San Francisco foram cerca de 23 horas. Isso sem contar os trechos dentro das cidades e parques nacionais.

Roteiro no mapa:

Veja o roteiro completo na mapa dinâmico abaixo

Roteiro Resumido 5 semanas de carro cruzando os EUA

PARTE 1: Rumo a Chicago

  • Dia 1: Truckee – Elko (Nevada)
  • Dia 2: Elko – Park City (Utah)
  • Dia 3: Park City
  • Dia 4: Park City – Vernal
  • Dia 5: Vernal (Dinosaur National Monument)
  • Dia 6: Vernal – Steamboat Springs (Colorado)
  • Dia 7: Steamboat Springs – Cheyenne (Wyoming)
  • Dia 8: Cheyenne – Kearney (Nebraska)
  • Dia 9: Kearney – Omaha
  • Dia 10: Omaha – Amana Colonies (Iowa)
  • Dia 11: Amana Colonies – Chicago

PARTE 2: Chicago – South Dakota 

  • Dias: 12 -16: Chicago
  • Dia 17: Chicago – Indiana Sand Dunes – Grand Rapids (Michigan)
  • Dias 18 – 21: Traverse City
  • Dia 22: Traverse City – Mackinaw Island
  • Dia 23: Mackinac Island
  • Dia 24: Mackinac Island – Munising
  • Dias 25-26: Munising 
  • Dia 27: Munising – Marquette
  • Dia 28: Marquette – Bay Field (Wisconsin)
  • Dia 29: Bay Field – Minneapolis  (Minnesota)
  • Dia 30-31: Minneapolis
  • Dia 32: Minneapolis – Wall (South Dakota)
  • Dia 33: Wall – Rapid City
  • Dia 34: Rapid City 

PARTE 3: Volta pra casa: Rapid City – Bay Area

  • Dia 35: Rapid City – Devils Tower – Buffalo (Wyoming)
  • Dia 36: Buffalo – Thermopolis
  • Dia 37: Thermopolis – Kemmerer
  • Dia 38: Kemmerer – Salt Lake City (Utah)
  • Dia 39: Salt Lake City – Truckee (Califórnia)
  • Dia 40: Truckee – Bay Area
Viagem de carro por 13 estados dos EUA
Mari (eu!), Tom e Caio começando a primeira parte da viagem

Destaques da viagem

  • Park City: Uma das poucas exceções à nossa regrinha de não repetir destinos, e uma parada sempre certeira em qualquer época do ano. O combo perfeito entre hospedagem, paisagens, atrações e gastronomia nos conquistou mais uma vez.
  • Dinosaur National Monument: Fiquei embasbacada com a beleza do parque – que não perde em nada para os 5 parques nacionais famosos de Utah – e com a pedreira onde estão os dinossauros. Em uma palavra: surreal!
  • Steamboat Springs: Um paraíso no verão! A junção das águas termais com o boia-cross no rio é sensacional. Já quero voltar pra esquiar!
  • Omaha: linda e superdivertida. A cidade tem os melhores parquinhos dos EUA, um Zoo fantástico e excelentes museus. Adoraria ter ficado mais tempo.
  • Chicago: a cidade dispensa apresentações e entrega MUITO. Foi uma delícia apresentar uma das cidades mais legais dos EUA às crianças.
  • Mackinac Island: que graça! Vale o hype todinho.
  • Sleeping Bear Sand Dunes: O parque é encantador. As praias de lago foram as mais bonitas da viagem.
  • Pictured Rocks National Lakeshore e as praias de Munising: uma delícia nadar nas águas do Lago Superior, o maior lago de água doce do mundo.
  • South Dakota: Badlands, Mt. Rushmore e Custer State Park superaram as expectativas.
  • Escavação de dinossauros em Thermopolis e fósseis no Fossil Lake
Presidentes no Mt. Rusmore em South Dakota
Presidentes no Mt. Rusmore

Roteiro detalhado

Para deixar este roteiro mais fácil de ser consultado (e usado nas suas viagens), vou fazer a divisão por estados.

CALIFÓRNIA

Truckee

Truckee, uma das cidades próximas a Lake Tahoe, foi o ponto de partida da nossa viagem e uma ótima pedida para descansar antes de encarar a estrada.

Passamos 5 dias curtindo as maravilhas de Tahoe com direito a tardes de sol na badalada Sand Harbor e na West End Beach (que fica no lago vizinho, o Donner Lake, e é maravilhosa), rafting nas águas calmas do Rio Truckee e trilhas com vista para os lagos (Picnic Rock vale sempre a caminhada). Temperamos os passeios com comida gostosa dos restaurantes da região. Adoramos o Great Gold, o Bar of America e a cervejinha artesanal da FiftyFifty Brewing Company.

NEVADA

Quem mora na Califórnia e gosta de viajar de carro já sabe que cruzar o deserto interminável de Nevada é um passo necessário para chegar aos parques nacionais avermelhados, às montanhas de esqui de Utah e a todas as possibilidades e relativamente próximas de Salt Lake City.

Cruzando a fronteira de Utah, não importa muito o lado que você escolher. É bonito pra todo lado! Tem o Zion, Capitol Reef e Moab. E, se topar dirigir um pouquinho mais, dá até para chegar a Grand Teton e Yellowstone.

Elko, a cidade dos cowboys

Pensando nisso, segui direto pela Interestadual 80 (ou I-80), o caminho mais curto e uma velha conhecida. Passei direto por Winnemucca e Lovelock, e confesso que até pensei em tocar direto até Park City (cerca de 8 horas), mas resolvi pegar leve no primeiro dia e parar em Elko, que é a melhor parada do caminho.

Chegamos no final da tarde, demos apenas uma voltinha rápida pelo centro e fotografamos os murais coloridos e a silhueta vistosa das Ruby Mountains, a joia natural da região.

Elko, a cidade dos cowboys de Nevada
Elko, a cidade dos cowboys de Nevada

Meu plano no caminho de volta era dormir mais uma noite em Elko e visitar as Ruby Mountains, que parecem incríveis, mas sabe aquela vontade de chegar em casa rápido? Passei direto e encarei as 8 horas de estrada até Truckee. As Ruby Mountains ficaram pra próxima.

West Wendover

Paradas rápidas para fotos? Claro! O Wendover Will, um neon gigante que desde 1952 enfeita a rotatória de Wendover, foi a nossa escolha e um lembrete legal que estávamos chegando no terceiro estado da viagem.

Perto do neon gigante há um memorial sobre a California Trail, o caminho feito pelos primeiros pioneiros que seguiam para se estabelecer no estado que hoje chamamos de lar e por aventureiros em busca do sonho dourado. O trajeto era feito a pé, com ajuda de carroças cobertas puxados por boi. Muitas famílias nunca chegaram ao destino final. Ao longo da viagem passamos por vários pontos-chave e memoriais desta rota.

Wendover Will, o gigante de Neon na última cidade que divide Nevada e Utah
Wendover Will, o gigante de Neon na última cidade que divide Nevada e Utah

Não tem nada em Nevada?

Muito se engana quem chama Nevada de sem graça. O estado tem parques desérticos lindos, como o Great Basin National Park e o Cathedral Gorge, e também tem a divertida Las Vegas, só que nenhum desses destinos fica próximo à nossa rota. Sem falar que visitar o deserto em pleno verão não é a melhor opção!

Reno, a cidade mais legal do caminho, é nossa conhecida e fica tão próxima de Truckee que não justificou a parada nessa viagem.

UTAH

Utah é um dos estados americanos mais surpreendentes no quesito belezas naturais e estradas cênicas. Dessa vez, optamos por uma rota rápida com paradas em Park City (um destino que amamos e não cansamos de repetir) e Vernal (um dos pontos altos da viagem). No caminho de volta pernoitamos uma noite em Salt Lake City, mas, como chegamos tarde e saíamos cedinho, dessa vez não deu tempo de passear.

Bonneville Salt Flats e Great Salt Lake

Assim que o tapetão da I-80 cruza a fronteira de Utah, desaparecem os cassinos e começam as salinas ou “Salt Flats”. A graça é passear pelos campos de sal e fazer fotos criativas com efeito de profundidade.

Na sequência vem o Great Salt Lake. O lago gigante que deu nome à capital do estado é um dos responsáveis pela neve sequíssima da região. Se parar no Great Salt Lake State Park parece tentador, vou te desaconselhar, pois já cometi esse erro numa viagem anterior. O visual é bonito, mas o lago é tão salgado que há muitos peixes e pássaros (grandes!) mortos nas margens. Além do cheiro de putrefação, a nuvem de mosquitos gulosos que habita as margens do lago durante o verão é tão densa que canelas descobertas não passarão ilesas.

No caminho de volta fiz uma paradinha rápida pra fotografar a Tree of Utah (chamada pelos locais de Árvore da vida), uma escultura de 27 metros construída e financiada pelo sueco Karl Momen, que visualizou a árvore em uma de suas andanças pela região e resolveu colocá-la de pé. Suas folhas são formadas por esferas revestidas de metais do estado. Vista de perto, ela parece ainda mais alta e até um pouco assustadora.

Tree of Utah, uma árvore de concreto plantada no deserto
Tree of Utah, uma árvore de concreto plantada no deserto

Na sequência, a cordilheira de Wasatch e os edifícios do centro financeiro de Salt Lake City nos mostraram que estávamos chegando à primeira parada oficial da viagem: Park City!

Park City

Montanhas verdinhas recortadas por pequenas marcas que conhecemos bem: as pistas de esqui. De um lado, vemos as enormes pistas de saltos nórdicos e, do outro, mais montanhas. Como é bom estar de volta a uma das cidades de montanha mais charmosas dos Estados Unidos.

Varanda do nosso quarto no Waldorf Astoria em Park City
Varanda do nosso quarto no Waldorf Astoria em Park City

Os meninos chegaram determinados: nada de almoço demorado ou pesado, queremos ir ao Woodward! Faz dois anos que visitamos o parque de camas elásticas e aventuras indoor e desde então eles pedem pra voltar. Dessa vez, o pedido foi atendido.

Woodward em Park City
Tom se esbaldando no Woodward em Park City

Passamos quase três horas pulando, caindo, subindo e descendo nas pistas malucas e piscinas de espuma. É bagunça boa que fala? O jantar foi na Matilda (1600 Snow Creek Dr, Park City), a pizzaria da modinha na cidade. O hype é justo: do pão estufado servido com burrata cremosa às pizzas napolitanas bem preparadas no forno a lenha, estava tudo delicioso. A pavlova, devorada sem nenhuma delicadeza pelos meus dois jacarés, arrematou a experiência com chave de ouro. Uma delícia!

Escurece tarde nas montanhas, e nós aproveitamos até o último minuto com mergulhos na piscina deliciosa do nosso hotel, o Waldorf Astoria, e com os marshmallows produzidos na cozinha do hotel. Toda noite tem um sabor diferente!

O dia seguinte começou com um conjunto de aventuras radicais no Parque Olímpico de Utah. Com o Golden Pass, pudemos brincar à vontade no escorregador alpino, nas tirolesas, nas paredes de escalada, no arvorismo e até em um tubing insano nas pistas de saltos de esqui.

Arvorismo no Parque Olímpico de Park City
Arvorismo no Parque Olímpico de Park City

Teríamos ficado bem mais tempo se não tivéssemos planejado mais um repeteco especial: almoço no Deer Valley Café. O Tom ama Turkey Chilli – sopinha de peru com feijão –, que é servido no pão nos meses de inverno e na cumbuquinha no verão, e ficou muito feliz em saborear o prato.

Deer Valley Café - Park City
O famoso turkey chilli do Deer Valley Café

Pra fechar a programação, uma cavalgada nas pistas de esqui, uma experiência linda para os meninos, que andaram pela primeira vez sozinhos a cavalo, e para mim, que amei ver algumas das pistas de esqui do Deer Valley cobertas de verde. A trilha atravessou uma floresta de aspens esbeltas salpicada com pequenas flores silvestres. Foi lindo ver a mudança de estação num dos nossos destinos de esqui preferidos.

Celebramos a última noite com jantar na piscina e mais uma rodada de s’mores. Tínhamos muitas milhas pela frente, mas sabíamos que seria bem difícil superar nossos dias em Park City tanto no quesito comida quanto no quesito hospitalidade.

Vernal

Dinah, uma dinossauro rosa gigante, abre alas na entrada da cidade desde a década de 1950: “Bem-vindos a Vernal, a cidade dos dinossauros”. Foram justamente eles e a presença do Dinosaur National Monument que nos motivaram a incluir Vernal no nosso roteiro. Acertamos em cheio!

Nossa passagem pela cidade misturou diferentes capítulos da história da região: conhecemos os antigos petróglifos no McConkie Ranch (doação de US$ 5 por veículo), que abriga centenas de petróglifos bem conservados da cultura Fremont, e visitamos o Utah Field House of Natural History State Park Museum, perfeito para aprender sobre os dinossauros e o processo de escavação de fósseis antes de visitar o Dinosaur National Monument.

Petróglifos da Cultura Fremont no McConkie Ranch - Utah
Petróglifos da Cultura Fremont no McConkie Ranch

Dinosaur National Monument

O parque nos impactou tanto pela famosa parede de fósseis do Quarry Hall (pense em algo surreal! São mais de 1.500 fósseis expostos) quanto pelas paisagens maravilhosas da Cub Creek Road, a estrada cênica que atravessa a porção do parque localizada em Utah. São 16 km recheados de mirantes e, para quem tiver disposição, trilhas. Nós fizemos a Box Canyon (0,4 km) e a Hog Canyon (2,4 km) – ambas ficam no ponto final da estrada.

Gostamos tanto do parque que voltamos no dia seguinte, antes de seguir para o Colorado, para conhecer Harper’s Corner, que é muito mais remota e, em termos de visual, muito mais impactante. São 50 km de estrada com uma trilha belíssima no final. A trilha Harper’s Corner (3,2 km – leve água porque a elevação do parque vai te deixar com muita sede) entrega vistas espetaculares do Green River e do abismo do Whirlpool Canyon, com mais de 700 metros de altura. É tão bonito que saímos sem entender por que este parque não é tão conhecido.

Harper's Corner no Dinosaur National Monument
Harper’s Corner no Dinosaur National Monument

Outras trilhas em Vernal

Ainda deu tempo de incluir duas trilhas belíssimas na região de Vernal: a Dinosaur Trackway (2,9 km), uma divertida caça às pegadas de dinossauros na beira da represa Red Fleet (leve roupa de banho para mergulhar nas águas lindas da represa), e o Moonshine Arch (2,4 km), um arco natural no meio do deserto. Vá no pôr do sol e apaixone-se pelas cores do deserto.

Pegadas de dinossauros no Dinosaur Trackway - Redfleet State Park
Pegadas de dinossauros no Dinosaur Trackway – Redfleet State Park

COLORADO

Quando comecei a montar o roteiro dessa viagem, eu tinha poucas coisas definidas, mas tinha claro que queria passar por dentro do Colorado. Fiz centenas de simulações para tentar encaixar o Mesa Verde National Park e Telluride, mas tive que me contentar com uma única parada: Steamboat Springs. E não é que valeu a pena?

Dirigir pelo Colorado Colorido – como bem diz a placa que fica na fronteira do estado – é sempre uma experiência especial.

Não entraram no nosso roteiro Denver (adoro a vibe da cidade e a cena gastronômica), Boulder (um encanto!), Breckenridge e o Rocky Mountain National Park, mas deixo aqui um roteiro de verão no Colorado para quem quiser explorar mais cores deste estado maravilhoso.

Steamboat Springs

Nenhuma outra cidade americana formou tantos atletas olímpicos de inverno quanto Steamboat Springs, a pequena Ski Town U.S.A. que mistura o espírito do Velho Oeste com a vida pacata de cidade de montanha. No verão, quando as pistas se cobrem de verde, é a água que ganha protagonismo criando atrações naturais para quem quer emoção ou relaxamento.

Nosso roteiro começou com uma manhã no Strawberry Park Hot Springs, um conjunto de piscinas termais no meio da natureza — reservas antecipadas são essenciais e fazem toda a diferença para garantir a entrada. E que delícia relaxar nas águas que há séculos conquistam visitantes.

Strawberry hot springs em Steamboat Springs, Colorado
Strawberry hot springs: uma das piscinas termias mais deliciosas do Colorado

Assim que o tempo esquentou, trocamos as águas quentinhas das nascentes pela diversão no boia-cross do Yampa River (atividade para maiores de 10 anos), um dos passeios mais gostosos do verão. Aqui a água é fria, mas as corredeiras gentis garantem a dose certa de emoção e muitas risadas.

Boia-cross do Yampa River em Steamboat Springs no Colorado
Boia-cross do Yampa River no Colorado

Ensopados e muito felizes, almoçamos no pátio externo do Fiesta Jalisco (455 Anglers Dr, Steamboat Springs, CO) — peça os tacos bem recheados e coma sorrindo — e fechamos o dia no Old Town Hot Springs, onde as águas termais foram transformadas em um parque aquático com toboáguas para os pequenos e piscinas para quem só quer relaxar.

Enquanto meus filhos desceram 47 vezes nos toboáguas e saltaram no trampolim, eu escolhi uma sombrinha na piscina em forma de coração. A Heart Spring é uma nascente natural que já brotava naquele formato antes de o local ser pavimentado e transformado no complexo de piscinas atual. Há bolinhas brotando no fundo e temperatura constante de 39 graus.

Old Town Hot Springs em Steamboat Colorado
Tom pulando no trampolim da Old Town Hot Springs

Não sei quanto a você, mas água quente sempre fez parte do meu vocabulário de linguagens do amor. Talvez por isso eu tenha saído de Steamboat Springs louca pra voltar no inverno. Ô cidade bacana!

WYOMING

O Wyoming entrou no nosso roteiro como uma passagem no caminho de ida e como um dos principais focos do caminho de volta. Que delícia descobrir que os encantos do estado vão muito além do Grand Teton e do Yellowstone.

Cheyenne

A capital do Wyoming nos recebeu com botinas de cowboy coloridas nas esquinas, uma referência divertida à tradição western da cidade, e um centrinho histórico delicioso de explorar a pé.

Cheyenne Depot Museum  - Wyoming
Edifício elegante do Cheyenne Depot Museum

Nosso roteiro foi curto, mas cheio de boas descobertas: começamos com café no Paramount (um antigo teatro convertido em café), passamos pela antiga estação de trem, hoje sede do Cheyenne Depot Museum – um edifício belíssimo em estilo românico que rende boas fotos mesmo para quem não vai visitar o museu – e terminamos no Capitólio Estadual, a parte mais especial do passeio.

Foi a primeira vez que os meninos entraram em uma sede de governo e ainda ganharam uma pequena aula de história – gentilmente oferecida por um dos guardas do local. O edifício, inaugurado em 1890, impressiona pela cúpula dourada, pelos vitrais e pelos detalhes do interior. Algumas das salas de governo ficam abertas à visitação, incluindo espaços onde decisões importantes do estado são tomadas.

Visitando o Capitolio de Wyoming no Colorado
Visitando o Capitolio de Wyoming no Colorado

O guarda ainda nos mostrou um detalhe bem legal no corrimão: um dos balaustres foi colocado de cabeça para baixo, de propósito, para interromper a perfeição do conjunto. Segundo ele, é um lembrete de que só Deus é perfeito.

Devils Tower com pernoite em Buffalo

Aproveitei o trajeto de volta para riscar alguns itens da minha lista dos sonhos. O mais impactante deles foi a Devils Tower, uma formação rochosa gigantesca com quase 400 metros de altura e diferente de tudo ao seu redor. Algo tão colossal que precisamos parar no acostamento algumas vezes para observar e fotografar o monólito.

Como é a visita ao Devils Tower no Wyoming
Devils tower vista da estrada

O centro de visitantes detalha a origem da rocha, que é sagrada para os povos nativos da região e, ao contrário do que eu pensava, não nasceu de uma erupção. O magma subiu pelo subsolo, mas não chegou à superfície. Ficou ali, resfriando lentamente até virar rocha. Milhões de anos de erosão desgastaram tudo o que havia ao redor, expondo essa enorme torre recortada por fileiras perfeitas de pedra.

Além da explicação geológica, há uma série de lendas e mitos contados pelos povos locais. Uma das mais conhecidas conta que algumas crianças estavam fugindo de um urso gigante e subiram em uma pequena formação rochosa para escapar. Elas oraram aos espíritos, e a terra começou a crescer, levando-as para o alto. As enormes linhas verticais na Devils Tower são as marcas deixadas pelas garras do urso tentando alcançar os pequenos. E não é que as linhas realmente parecem garras?

Demos uma volta completa no monumento, parando para observar falcões e alpinistas desafiando a gravidade. Eu, que adoro escalada e não costumo ter medo de altura, fiquei bem intimidada pela dimensão da torre: colossal.

Visitando a Devils Tower no Wyoming
Devils Tower: a foto não mostra a dimensão colossal da torre

De lá, seguimos para Buffalo (WY), uma ótima base tanto para quem segue para o Yellowstone quanto para quem continua rumo a Thermopolis. O centro histórico pequenino tem um monte de murais coloridos, predinhos históricos e, durante a nossa visita, tinha até música ao vivo rolando na praça.

Dica do Ideias na mala

Na saída de Buffalo, há duas estradas cênicas que merecem ser dirigidas com calma: a Crazy Woman Rd. (uma estrada de chão batido com 20 km de extensão que atravessa um cânion bem estreito. É recomendável usar um carro 4×4 alto – sozinha com as crianças, achei melhor não arriscar) e o Ten Sleep Canyon, que é belíssimo do início ao fim e cheio de paradas cênicas. Não há sinal de celular por lá, então vale baixar o mapa e selecionar suas paradas com antecedência.

Thermopolis

O termômetro beirava os 40 °C quando chegamos a Thermopolis, uma cidade de apenas 2.700 habitantes que se gaba de ter a maior fonte de águas termais do mundo — afirmação contestada pelo Guinness World Records, mas orgulhosamente estampada na montanha local. Com aquele calor, tivemos que mudar os planos e, por alguns minutos, trocar o mergulho nas águas termais, tradicionalmente associadas a propriedades terapêuticas, por um banho bem mais gelado no Bighorn River.

O lugar que escolhemos fica dentro do Hot Springs State Park, na rampa para barcos, justamente onde o rio encontra a Big Spring, a maior das fontes termais do parque. A mistura das duas águas cria uma área mais rasa e com uma temperatura deliciosa: nem quente demais, nem gelada. Para nós: perfeita!

Banho de águas termais

Ali do ladinho fica a Hot Springs State Park Bath House, a casa de banho pública da cidade. E ela existe graças a um acordo histórico de 1896, quando os povos Shoshone e Arapaho cederam ao governo americano as terras onde ficam as fontes termais, com uma condição muito especial: que parte dessas águas fosse preservada para uso gratuito do público. Mais de 130 anos depois, o acordo continua valendo. Moradores e turistas podem entrar e aproveitar as águas minerais a 40 °C por até 20 minutos, sem pagar nada. Refrescados pelas águas do rio, ignoramos o calorão e fomos testar as piscinas. O veredito: amamos.

Casa de banho pública em Thermopolis
Casa de banho pública em Thermopolis – uma forma muito legal de curtir um banho de águas termais

No comecinho da noite, retornamos ao parque para conhecer mais uma atração local, o Tepee Pool and Spa, um complexo de piscinas termais com toboágua, hot tub, sauna e cold plunge que fica aberto até as 21h nos meses de verão. Aqui a vibe é muito mais rústica que em Steamboat Springs, no Colorado, mas igualmente relaxante para fãs de água quente de plantão. Os pequenos se esbaldaram nas águas termais e desceram umas 30 vezes no toboágua. Eu, mais uma vez, aproveitei para relaxar entre mergulhos quentes e um cold plunge (contraste gelado).

Tepee Pool and Spa em o que fazer em Thermopolis
Tepee Pool and Spa, um parque aquático de águas termais

Escavação de dinossauros

A cidade das águas termais guarda mais um segredo emocionante e o destaque da nossa parada: uma expedição no Wyoming Dinosaur Center (110 Carter Ranch Rd, Thermopolis), um museu que, além de ter um acervo impressionante de fósseis e dinossauros, promove experiências de escavação guiadas por paleontologistas.

Nós escolhemos a Shovel Ready, uma expedição de meio dia que me deixou de boca aberta desde os primeiros instantes: nosso sítio de escavação tinha tantos ossos enormes de diplodoco parcialmente expostos que eu quase caí pra trás de emoção. Somos algumas das primeiras pessoas do mundo a ver, tocar e escavar esses tesouros.

Escavando fósseis de dinossauros em Thermopolis Wyoming
Escavando ossos de dinossauros em Thermopolis Wyoming – Repare no osso de diplodoco junto as mãos do Caio

Com uma mini vassoura, um balde e pequenos pincéis, fomos desbastando uma encosta à procura de novos ossos. E não é que o Caio, que a gente brinca que tem olhos biônicos, achou 3 ossinhos logo nos primeiros instantes? Sua maior conquista veio uns 45 minutos depois: um pedaço de vértebra de dinossauro. A descoberta foi mapeada, e os nomes dele e do Tom ficaram registrados como descobridores. Eu achei vários pedacinhos minúsculos de ossos ao “limpar” uma área maior já descoberta.

Depois da expedição, passeamos pelo museu, que é compacto, porém excelente. Antes de seguir viagem, almoçamos sanduíches e saladas no One Eyed Buffalo Brewing Company (gostamos tanto que comemos por lá duas vezes durante a nossa passagem por Thermopolis).

Kemmerer

Aproveitamos o embalo dos dinossauros para emendar mais uma experiência incrível com fósseis: o Fossil Lake Safari, na cidade de Kemmerer, que, há cerca de 50 milhões de anos, ficava às margens de um enorme lago de água doce.

O antigo “lago dos fósseis” deixou para trás uma das maiores coleções de fósseis do período Eoceno do mundo. No Fossil Butte National Monument, dá para entender essa história e ver alguns dos fósseis encontrados na região. Mas quem quiser colocar a mão na massa — ou melhor, na pedra — pode visitar uma das pedreiras particulares e procurar os seus próprios tesouros.

A dinâmica é simples: você recebe as ferramentas, escolhe as placas de rocha e vai quebrando cuidadosamente as camadas de pedra para descobrir o que está escondido ali. E o melhor é que os fósseis encontrados podem ser levados para casa. Nós ficamos três horas, tempo suficiente para pegar o jeito e sair de lá com dezenas de fósseis de peixes pré-históricos, como o Diplomystus.

NEBRASCA

“É chatíssimo cruzar o Nebraska” ou a versão menos informada “Vai fazer o que no Nebraska se não tem nada lá?” foram duas das frases que mais ouvi ao comentar os planos da nossa viagem para conhecidos. Minha opinião após ter vivido a viagem? Tenho sérias dúvidas se dirigimos pela mesma estrada. (E sim, dirigimos, porque a I-80 é a única opção para quem faz essa rota.)

Com a mente aberta e os olhos atentos, vi muitas pradarias elegantes, fazendas de gado, alguns lagos e florestas de árvores finas. Não dá para comparar com os encantos das estradas da Califórnia, Utah, Arizona ou Colorado, mas daí a dizer que não tem nada?! Eu não poderia discordar mais.

Meu primeiro roteiro incluía uma noite em North Platte. Mas, quando percebi que uma das atrações mais interessantes da região, o Buffalo Bill Ranch, não funciona às segundas e terças, comecei a olhar para o mapa de outro jeito. Se eu não conseguiria aproveitar bem a cidade, por que não ganhar mais tempo em Omaha?

A solução foi transformar North Platte em uma parada rápida: uma visita à Golden Spike Tower, de onde dá para ver milhares de vagões que parecem pequenos enquanto são separados e reorganizados para seguir viagem por diferentes partes dos Estados Unidos. De lá, seguimos para Kearney, onde passamos a noite.

Golden Spike Tower no Nebraska
Golden Spike Tower no Nebraska

Kearney

Kearney entrou no roteiro pela posição geográfica e nos ganhou desde a chegada: comida boa, parques lindos e o excelente Archway Museum.

Nosso jantar com vista para o lago no Cunningham’s Journal On The Lake (610 Talmadge St Suite A, Kearney) encerrou o dia de forma linda. Minha vontade era terminar o dia passeando pelo Yanney Heritage Park, um parque bem verde salpicado por esculturas ao ar livre — incluindo uma estrutura de vidro de Chihuly — e uma torre de observação bem alta, mas os meninos já estavam exaustos depois de tanta estrada, então achei melhor encerrar o dia mais cedo.

Archway Museum

Na manhã seguinte, fomos direto ao Archway Museum, uma enorme estrutura em forma de arco que atravessa a I-80.

Ao cruzar a ponte, você percorre uma exposição que conta a história do caminho que passa por ali há séculos. Primeiro vieram as rotas indígenas; depois, a Great Platte River Road, por onde passaram pioneiros das Oregon e California Trails (lembra do Memorial que vimos em West Wendover, Nevada?), aventureiros a caminho da corrida do ouro e, mais tarde, trens e os primeiros automóveis.

Archway Museum no Nebraska
Subida ao Archway Museum em Kearney no Nebraska

Todas essas histórias são contadas com cenários bem feitos em tamanho real, áudios ricos e muitos detalhes que eu e as crianças amamos conhecer. Foi uma maneira muito legal de mostrar aos pequenos que a estrada que hoje nos leva da Califórnia a Chicago — e que segue até a região de Nova York — faz parte de uma rota que teve um papel importante nos 250 anos de história americana.

Nossa visita foi bem mais longa que o planejado, então saímos de lá direto para Omaha.

Omaha

Eu já sabia que Omaha era uma cidade bacana, mas não tinha ideia de que ia gostar tanto, com espaços públicos bem cuidados, dois dos melhores parquinhos que já visitamos e atrações divertidas para adultos e crianças. Chegamos em pleno Men’s College World Series, um evento de baseball universitário que mobiliza fãs de todo o país, e pegamos a cidade lotada e bem-humorada.

O Omaha’s Henry Doorly Zoo and Aquarium foi outra surpresa — fui por insistência do Caio (“mamãe, eu quero muito”) e entendi rapidamente por que ele foi eleito o melhor zoológico do país pelo USA Today 10Best pelo quarto ano consecutivo.

O zoo é enorme e conta com ambientes impressionantes, como o Desert Dome, uma cúpula que recria três regiões desérticas, e o Lied Jungle, uma floresta tropical indoor. O ponto alto da visita foi o Kingdoms of the Night, uma ala dedicada aos animais noturnos, onde a iluminação é invertida para que eles estejam ativos durante a visita. Ver o castor roendo gravetos para construir sua barragem foi realmente emocionante.

Outras visitas que valem a pena são o Kiewit Luminarium, um museu com experiências interativas de ciência muito legais, e a ponte que conecta Nebraska a Iowa — Bob Kerrey Pedestrian Bridge — e que nos rendeu fotos divertidas com um pé em cada estado.

Bob Kerrey Pedestrian Bridge em Omaha
A divisa entre Iowa e Nebraska

Omaha também nos surpreendeu pela cena gastronômica. Adoramos o Memoir (930 Harney St, Omaha, NE 68102), um restaurante bem eclético que serve de massas e carnes a sushis, e a Upstream Brewery Company, uma cervejaria artesanal bem movimentada. O cozido de carne acompanhado de uma IPA estava divino.

IOWA

Tivemos um dia para cruzar Iowa e chegar em Chicago no dia certo, então precisei dispensar a parada em Des Moines, a capital do estado — uma cidade que eu tenho certeza de que vou gostar —, e escolher algo mais próximo da Cidade dos Ventos e que não me tirasse muito da rota. Minha escolha foi Amana, uma das sete colônias históricas fundadas por imigrantes alemães no estado.

Assim que entrei em Iowa, lembrei de uma amiga da faculdade. Um dia, perguntei a ela, meio sem saber o que esperar: “O que tem em Iowa?” A resposta veio sem hesitação: “Puro milharal.” Dei risada ao constatar que ela não estava exagerando. Bastou cruzar a fronteira para os milharais ficarem muito mais presentes na paisagem: fileiras e mais fileiras de plantas, estendendo-se até onde a vista alcançava e balançando com o vento. Iowa é, de fato, o maior produtor de milho dos Estados Unidos. Em 2025, o estado produziu mais de 70 milhões de toneladas de milho — cerca de 16% de toda a produção do país. Haja milharal!

Amana

Chegamos a Amana no comecinho da noite, cansados depois de uma manhã inteira andando pelo zoológico, mas ainda com pique para tomar uma cervejinha no Millstream Brau Haus — eu paguei, obviamente, US$ 2 a mais para beber na bota —, acompanhada de schnitzel. Ainda deu tempo de brincar no parquinho e dar uma volta pelos edifícios históricos e pela antiga estação de trem.

Amana Colonies em Iowa
Cervejinha longa e o sorríso de quem tava quase chegando em Chicago

IOWA 80 e comida boa

Continuando a viagem rumo a Chicago, fizemos duas paradas que merecem destaque: a Iowa 80, considerada a maior parada de caminhões do mundo — imagine um posto Graal, só que em escala gigantesca —, e o The Machine Shed (7250 Northwest Blvd, Davenport, IA), um restaurante tradicional que serve churrasco e comida americana em um ambiente que lembra uma fazenda. Adoramos a comida.

ILLINOIS

Quando o assunto é viagem de carro e Illinois, difícil não pensar na Rota 66, né?! Eu até cogitei voltar para a Califórnia por ela, mas, como já havia percorrido boa parte da rota durante nossa viagem entre a Califórnia e a Flórida, aproveitei a deixa para conhecer a Dakota do Sul, que há anos tá na minha listinha dos sonhos.

Ponto de início da Rota 66 em Chicago
Ponto de início da Rota 66 em Chicago

Illinois ficou bem representado no nosso roteiro por Chicago (sem dúvida, uma das cidades mais incríveis dos EUA). Finalmente apresentamos a Cidade dos Ventos para nossos filhos e, como já esperávamos, eles amaram.

Chicago

“Mamãe, isso é magnificent” — exclamou o Tom, numa mistura de português e inglês, ao ver o skyline de Chicago brotando no horizonte. O Tom, que sempre gostou de cidades grandes e tem um espaço enorme no coração para Nova York, Londres e São Paulo, passou os próximos dias trocando os lugares do pódio. “É que Chicago tem tudo o que eu gosto: tem lago bonito com praia, um montão de prédios espelhados e tem a deep dish pizza, hummm.”

Tour arquitetônico de Chicago
Tour arquitetônico de Chicago

É fácil gostar de Chicago, ainda mais com hotel bem reservado no burburinho da cidade e um roteiro montado para divertir todos os membros da família.

Nosso roteiro de Chicago combinou um giro caprichado pelo centro — com direito ao tour arquitetônico, que é sensacional —, visitas caprichadas ao The Art Institute of Chicago (um baita museu; se você gosta de arte, não perca), ao Field Museum (o Museu de História Natural de Chicago tem a melhor exposição sobre a evolução da vida no planeta Terra que já vimos, além, é claro, do esqueleto de T-Rex mais completo já encontrado, a Sue) e ao Griffin Museum of Science and Industry (que mais uma vez nos impressionou com exibições especiais muito bem montadas e a chance de visitar o interior de um submarino da Segunda Guerra Mundial). Também fizemos visitas mais rápidas ao Adler Planetarium e ao Shedd Aquarium (como ambos estão inclusos no CityPASS, aproveitamos a deixa para visitar).

T-Rex Sue - Field Museum
T-Rex Sue – Field Museum

Entre um museu e outro, a criançada se divertiu com as fontes do Millennium Park e os parquinhos criativos do Maggie Daley Park Play Garden.

Comida é sempre um ponto alto da experiência em Chicago, e nós aproveitamos a deixa para fazer o Tour Gastronômico The Bear (quem aí é fã da série?) — que, por sinal, foi bem legal com as crianças — e provar restaurantes badalados (e deliciosos). Adoramos o italiano Alla Vita, o japonês Sushi Dokku, o peruano Tanta e o mediterrâneo Aba. Também comemos a pizza Chicago Style no Giordano’s e o hot dog Chicago Style (se você topar ouvir umas malcriações e palavrões — é tudo feito de brincadeira, mas não pode se incomodar —, vale conhecer o Wiener’s Circle).

Yes Chef Food Tour em Chicago
Mr. Beef, primeira parada do tour temático da série The Bear

O Lago Michigan, com seus tons surreais de azul, também conquistou uma tarde do nosso roteiro. E que delícia mergulhar nas águas refrescantes e maravilhosas de um dos maiores lagos do mundo. Nos próximos dias, repetimos a experiência em outros pontos do lago, em Michigan, onde a água é igualmente linda, mas muito mais quente.

INDIANA

Indiana foi um estado de passagem, mas rendeu uma parada linda no Lago Michigan. Visitamos o Indiana Dunes National Park, que protege uma das paisagens mais singulares da região dos Grandes Lagos: o encontro de dunas de areia, pântanos e florestas com o Lago Michigan.

Nossa parada foi na Kemil Beach, de onde curtimos o visual da praia com o skyline de Chicago ao fundo, e no Dune Ridge Trail (1,1 km), que sobe pelas dunas e rende vistas ainda mais bonitas.

Continuamos de carro beirando o lago. Segundo a guarda florestal, aquele é um dos poucos trechos do Lago Michigan onde é possível dirigir praticamente à beira da água — uma despedida gostosa antes de voltar para a estrada.

E, claro, as crianças aproveitaram a parada para completar o livrinho do Junior Ranger, programa gratuito disponível nos parques nacionais, e garantir mais um broche para a coleção.

MICHIGAN

Cruzei a fronteira entre Indiana e Michigan cantarolando. Há anos, este destino pouco conhecido pelo turista brasileiro ocupa um triplex na minha lista dos sonhos. O desafio foi encaixar boa parte das bandeirinhas colecionadas no Google Maps em um roteiro de dez dias. Tive que fazer escolhas difíceis e deixar vários destinos para uma próxima viagem.

Sleeping Bear Sand Dunes em viagem de carrompelo Michigan
Sleeping Bear Sand Dunes, um dos meus lugares preferidos

A parte boa? Michigan rende e merece muito mais que uma única viagem. Nosso roteiro priorizou a região de Traverse City, Mackinac Island e um pedacinho da Upper Peninsula. Deu para ter uma ideia boa da vibe e das maravilhas do estado. Se Michigan nunca fez parte da sua lista dos sonhos, os próximos parágrafos têm grande chance de te fazer mudar de opinião!

Grand Rapids

Com a premissa de que Michigan inteiro não cabe num roteiro de 10 dias, precisávamos escolher uma cidade para quebrar o trajeto entre Chicago e Traverse City. Fiquei muito em dúvida entre Holland (dona de uma herança holandesa bem forte e arquitetura linda) e Grand Rapids, a segunda maior cidade do estado, que acabou me ganhando pelas fotos do Frederik Meijer Gardens & Sculpture Park.

Chihuly no Frederik Meijer Gardens em Michigan
Bolinhas de vidro do Chihuly no Frederik Meijer Gardens

Depois de muitas horas de direção, a combinação de jardim botânico com jardim de esculturas (com direito a uma exibição especial de Dale Chihuly, que adoro!), entretenimento para as crianças e música ao vivo no final da tarde foi irresistível. Os jardins, salpicados por globos e torres gigantes de vidro colorido, renderam fotos lindas, e os pequenos se esbaldaram no parquinho molhado com formato dos Grandes Lagos e no que eles apelidaram de “Casa do Tarzan”, uma espécie de casa da árvore no meio da floresta.

Ainda deu para dar um giro no centrinho da cidade e comer comida típica do sul dos EUA no delicioso Garden District (55 Monroe Center St NW, Grand Rapids).

Traverse City

Nem a previsão de 5 dias de chuva abalou nossas expectativas, que eram gigantes. Queríamos viver os encantos da cidade da cereja ao máximo e, já que chegamos algumas semanas antes de as cerejas maturarem, o jeito foi colher morangos na Península de Old Mission (os morangos de Michigan são pequeninos e bem doces; saímos com duas caixas lotadas) e provar todas as tortas de cereja que encontramos pelo caminho.

O que fazer em Traverse City: colher morangos
Colhendo morangos no Michigan

A mais gostosa foi a da Grand Traverse Pie Company (525 W Front St, Traverse City, MI 49684), que fica na rua central da cidade — uma graça, por sinal. A torta estava tão boa que, depois da fatia, compramos uma inteirinha para levar para o hotel.

A loja em frente, a Cherry Republic, desafiou todos os padrões gastronômicos existentes para criar molhos picantes, sorvetes, biscoitos e outras delícias que você pode degustar antes de comprar. A salsa picante era tão deliciosa que voltou para a Califórnia com a gente. (Meu arrependimento foi não ter comprado mais potes.)

Good Harbor Bay e Leland

Dedicamos um dos nossos dias às praias do Lago Michigan. Nossa preferida foi a Good Harbor Bay, uma baía de águas calmas onde, com olhos atentos, é possível achar as famosas Petoskey stones — pedras formadas por corais pré-históricos fossilizados. Ali do ladinho fica a charmosa Leland, conhecida pelo vilarejo pesqueiro super fotogênico “Fishtown” e pelos sanduíches de queijo do Village Cheese Shanty (199 W River St, Leland, MI 49654), pagos apenas em dinheiro.

O que fazer em Traverse City - Leland Fishtown
Leland Fishtown e o sanduba maravilhoso da Cheese Shanty

Por lá, o Tom e o Caio aprenderam o verdadeiro sentido da expressão “história de pescador”, quando um dos locais puxou conversa e passou uns 40 minutos contando suas aventuras pescando pela região e conhecendo gente do mundo todo. A pescaria não nos atraiu, mas levamos as histórias e ótimas risadas.

Arrematamos o passeio com um pulinho no Grand Traverse Lighthouse. Michigan é dona da maior coleção de faróis de todos os estados americanos, e não poderíamos deixar o estado sem colecionar alguns deles, poderíamos?! Vistas do lago e um parquinho caprichado para os pequenos foram o final perfeito para o nosso dia.

Grand Traverse Lighthouse em viagem Michigan
Grand Traverse Lighthouse

Vinhos de Traverse City e o Grand Traverse Commons

Os Michiganders têm muito orgulho dos vinhos produzidos na região, que nos últimos anos vem ganhando projeção nacional como destino vinícola. A estrela é o Riesling, que se beneficia do clima frio e da influência dos Grandes Lagos: as uvas amadurecem lentamente, preservam a acidez e dão origem a vinhos frescos que marcam a produção local.

Minha experiência preferida foi na Left Foot Charley (806 Red Dr Ste 100, Traverse City, MI), uma vinícola urbana que trabalha com pequenos produtores da região e transforma essa diversidade de terroirs em vinhos deliciosos. O cenário é parte da experiência. A LFC funciona no Village at Grand Traverse Commons, um antigo complexo psiquiátrico do século XIX transformado em complexo de entretenimento com lojas, restaurantes, cafés e espaços culturais. O antigo porão onde eram armazenadas frutas e verduras cultivadas no hospital é usado pela vinícola para envelhecer seus vinhos. Minha degustação de vinhos, combinada com uma tábua de queijos locais, estava deliciosa.

Esticamos o passeio com uma trilha pelo Grand Traverse Commons Natural Area, uma área de mata que fazia parte dos terrenos do antigo hospital. Entre bosques, riachos e pequenas clareiras, caminhamos até a curiosa Hippie Tree, uma árvore enorme coberta de pinturas e grafites que virou um dos símbolos do lugar.

Sleeping Bear Sand Dunes

Dedicamos nosso último dia na região ao Sleeping Bear Sand Dunes, um parque nacional que entrega algumas das paisagens mais bonitas do Lago Michigan, pedacinhos de história bem preservados e as dunas gigantes que dão nome ao parque.

Começamos o dia vendo tudo do alto na Empire Bluff Trail (2,4 km), uma trilha que atravessa uma floresta de maples até chegar a uma clareira com vista para o Lago Michigan, o Platte Lake e as enormes dunas de Sleeping Bear. É uma trilha relativamente fácil, porém movimentada, e, pra conseguir estacionar, minha dica é chegar cedo: de todos os lugares que visitamos em Michigan, o Sleeping Bear Sand Dunes foi o mais cheio.

Vistas da Empire Bluff Trail no Sleeping Bear Dunes
Vistas da Empire Bluff Trail

Continuamos a aventura pela Pierce Stocking Scenic Drive, uma estrada cênica com 12 km e vistas caprichadas do lago e das dunas. Destaque para o mirante #9 (Lake Michigan Overlook), onde fizemos a descida até o lago. A inclinação é tão pesada que há uma placa desencorajando a descida e lembrando que o resgate de quem não conseguir subir por conta própria pode custar até US$ 3 mil. Para quem tem um bom preparo físico, a descida rende um desafio, vistas lindas e um mergulho maravilhoso no lago.

Terminamos o dia curtindo a parte histórica do parque em Glen Haven, que tem uma praia belíssima e alguns edifícios históricos super charmosos. Durante décadas, o vilarejo foi uma parada importante para os barcos que navegavam pelo Lago Michigan e paravam por lá para se abastecer de madeira e suprimentos. Com o clima imprevisível do lago, não era raro uma tempestade mudar os planos de quem estava por ali — obrigando barcos e passageiros a esperar dias até que fosse seguro seguir viagem. E foi imaginando essas histórias e como era a vida na região há mais de 100 anos que caminhamos pelo vilarejo, entre o antigo armazém, a ferraria, a hospedaria (que hoje é um hotel disputado) e a praia.

Parte histórica em Glen Haven Michigan
Parte histórica do parque nacional em Glen Haven

Mackinac Island

Nossa próxima parada, Mackinac Island, a ilha mais badalada de Michigan, fica cerca de 160 km (~2 horas) ao norte, num caminho recheado de cidades fofas como Petoskey, que acabou caindo fora do roteiro por falta de tempo, mas entrou com uma paradinha rápida, porém especial. A cidade onde Ernest Hemingway passava suas férias de verão é uma graça!

O terminal de balsas de Mackinaw City é movimentado, porém super organizado. Hóspedes do Grand Hotel (o colosso da ilha e cenário do filme Em Algum Lugar do Passado) têm um guichê separado para despacho de malas, e todos os outros hotéis despacham em um segundo lugar. Aqui faço uma ressalva que amaria ter lido antes de viajar para lá: se você puder cacifar o Grand Hotel, não pense duas vezes. Caso contrário, vale muito mais a pena se hospedar fora da ilha e pegar a balsa diariamente. No verão, as balsas começam super cedo e terminam tarde da noite, e, por 15 minutinhos de travessia no lago, você economiza um montão. Nosso hotel, o Bicycle Inn, era uma gracinha e muito bem localizado, mas não valeu pagar 4x mais caro por ele (em comparação com um hotel similar em Mackinaw City)

Main Street de Mackinac Island - Michigan
Main Street de Mackinac Island

Vinte minutinhos de balsa separam Mackinac Island do continente. São 8,2 milhas de circunferência, bem na divisa entre os lagos Michigan e Huron, com um detalhe bem especial: carros não são bem-vindos. Bicicletas e charretes são os principais meios de transporte da ilha, e até cargas e mercadorias circulam assim.

Passeio de bicicleta em Mackinac Island no Michigan
Passeio de bicicleta em Mackinac Island no Michigan

A sensação de voltar no tempo me acompanhou desde a chegada à ilha, que fica cheíssima aos finais de semana de verão, mas o clima é de celebração, e o cheiro é uma mistura peculiar de chocolate e, claro, cavalo. A rua principal é recheada de lojinhas de souvenir, restaurantes e lojas de fudge — a iguaria local, produzida à moda antiga em grandes tabuleiros de pedra, é responsável pelo aroma de chocolate que praticamente te puxa para dentro das lojas. Peça para provar uma amostrinha antes de escolher o seu sabor!

O mergulho no passado ganha camadas ainda mais interessantes com a visita ao forte, no topo da ilha, que conta pedacinhos da história de Mackinac, disputada por franceses, britânicos e americanos e tomada pelos britânicos durante a Guerra de 1812. Em 1875, o destino se transformou no segundo parque nacional dos Estados Unidos, depois de Yellowstone, antes de passar para o controle do estado em 1895. Tiros de canhão e apresentações com guardas florestais e atores vestidos com roupas de época completam o cenário. Quem viaja com crianças ainda conta com uma área onde os pequenos podem se fantasiar e brincar. Nós aproveitamos a deixa para tomar um chá da tarde (no restaurante do forte) com vistas da ilha.

Forte Mackinac em Mackinac Island
Forte Mackinac: dono das vistas mais lindas da ilha

Outro passeio clássico é a volta na ilha de bicicleta, e a graça aqui é fazer com calma, parando nos parques (leve repelente, você vai me agradecer) para fotografar e caminhar. Não deixe de subir até o arco natural e ver os degradês de azul compondo os enormes contornos do lago lá do alto. Também vale visitar o Grand Hotel. O palacete, inaugurado em 1887, tem um interior lindíssimo. A visita é paga (US$ 14 por adulto e US$ 7 por criança), mas o valor pode ser abatido do buffet de café da manhã.

Para comer, temos duas dicas. O Pink Pony (reserve uma mesa no pátio) tem um serviço excelente e massas deliciosas. Até hoje, o Tom fala da Pasta Di’Angelina que provou por lá. Para uma refeição mais caprichada, minha dica é o Woods, que, como o nome já dá a deixa, fica no meio da floresta. Chão quadriculado, paredes vermelhas e um menu bem pensado completam a experiência.


Saindo de Mackinac Island, cruzamos a Big Mac, a ponte que conecta as duas grandes penínsulas de Michigan: a Lower Peninsula e a Upper Peninsula (UP). É surreal pensar que esse estreito congela completamente no inverno, formando pontes de gelo que são atravessadas pelos locais a pé, de bicicleta elétrica e de snowmobile. Sempre que as condições permitem a travessia, os locais criam um trajeto sinalizado por pinheiros de Natal que conecta a ilha ao continente. Já pensou que surreal? Eu acho que teria medo de cruzar 12 km numa ponte de gelo!

Tínhamos algumas opções de caminhos para chegar a Munising, e eu fiquei bem dividida entre acrescentar um desvio para visitar o Tahquamenon Falls State Park, onde fica a maior cachoeira do estado em volume de água, ou seguir pelo caminho mais curto e visitar o Benny, o pescador barbudo, uma instalação do artista dinamarquês Thomas Dambo — de quem somos fãs. Benny e o caminho mais curto ganharam a votação, mas deixo a dica da cachoeira para quem tiver mais tempo: parece linda!

Benny, o pescador barbudo - Thomas Dambo
Troll Benny, o pescador barbudo do artista Thomas Dambo

Munising

Munising, com suas praias de rio caprichadas — em especial a Sand Point Beach —, cachoeiras e os paredões coloridos formados nas margens do lago, marcou nosso ponto de encontro com o Lago Superior, também chamado de Mother Lake pelos povos nativos. O maior corpo de água doce do planeta alimentava, sustentava e conectava as comunidades. Há muitas lendas que narram a importância e a força das águas e das ondas — muitas vezes implacáveis — formadas pelo vento. Para nós, meros visitantes, foi muito bonito mergulhar nessas águas cheias de histórias e descobrir a beleza das praias e das cachoeiras que escorrem no lago. E não é que a água estava mais quente do que esperávamos?

Sand Point Beach em Munising Michigan
Sand Point Beach em Munising Michigan

Dividimos nossos 3 dias na região entre praias, um passeio de carro pelo Pictured Rocks National Lakeshore — destaque para as vistas surreais do Log Slide Overlook — e um passeio de barco lindíssimo pelos paredões coloridos que dão nome ao parque nacional.

Paredões coloridos do Pictured Rocks em Michigan
Passeio de barco pelos Pictured Rocks

Devoradores de canela

Dependendo da direção em que o vento soprar, as margens do Lago Superior ganham visitantes nada bem-vindos por turistas e locais. Os “ankle biters” são moscas pequenas, parecidas com moscas comuns, mas que mordem — e mordem duro —, especialmente pés, tornozelos e canelas. Quando o vento sul sopra em direção à costa, elas podem aparecer aos montes, e não há repelente que resolva: a melhor defesa é calça comprida e grossa. As moscas impediram caminhadas que havíamos programado pelo parque nacional e picavam até dentro d’água.

Marquette

Chegamos a Marquette no dia 3 de julho, às vésperas dos 250 anos dos Estados Unidos e bem no dia em que o show de fogos celebraria o aniversário do país. Chegamos com clima de celebração, ruas fechadas para carros e um monte de festas simultâneas rolando pela cidade. Pense num clima gostoso!

Começamos explorando o Sugarloaf Mountain. A versão Michigander do Pão de Açúcar tem um formato bem mais modesto que seu irmão carioca, mas oferece vistas lindas da baía para quem topar subir a trilha curta, porém íngreme, até o topo. São cerca de 500 degraus e trechos de subida entre pedras e raízes, recompensados por mirantes com vistas para o Lago Superior e a costa recortada de Marquette. Na sequência, demos um pulinho no farol fotogênico da cidade.

O dia estava friozinho para pegar praia, mas não abrimos mão de provar o sorvete “da Vaca”, ou Gilbert Dairy, uma instituição local. O maior sorvete de “uma bola” que tomei na vida pode ser dividido em dois sabores e custou US$ 3,95. Achei que não ia aguentar tudo, mas tava tão gostoso que fiz o esforço. Ainda que a combinação torta de limão com fudge de Mackinac Island não tenha nada a ver, amei minhas escolhas!

Demos muita sorte de conseguir uma mesa para jantar no badalado e delicioso Vierling Restaurant (119 S Front St, Marquette). Eu, se fosse você, reservaria com antecedência e pediria o chicken marsala. Depois do jantar, curtimos a vibe do Freedom Fest, com uma área de escorregadores infláveis para as crianças, show de rock gratuito rolando ao vivo e, claro, contagem regressiva e uma bonita queima de fogos de artifício que durou 18 minutos.

Depois de cruzar 10 estados dirigindo e conhecer tantas peças diferentes do quebra-cabeça norte-americano, ver a estrutura do antigos cais de carregamento de minério de ferro iluminada pelos fogos coloridos foi emocionante.

Fogos de 4 de julho em Marquette Michigan
Fogos de 4 de julho em Marquette

WISCONSIN

Tínhamos apenas um dia pra cruzar o Wisconsin todinho e o desafio de escolher uma cidade bonita para pernoitar pelo caminho. Não tínhamos a pretensão de conhecer o estado, que, assim como Michigan, mereceria pelo menos uns 10 dias de viagem, mas queríamos conhecer um cantinho especial e, de preferência, às margens do Lago Superior.

Bayfield

Nossa escolha foi Bayfield, uma cidade super charmosa e ponto de saída dos passeios de barco para as Apostle Islands, um arquipélago de 22 ilhas, sendo que 21 delas são protegidas por um parque nacional. Gostamos tanto da visita e do passeio de barco pelo Pictured Rocks National Lakeshore que pensamos que seria uma escolha certeira. E, claro, as fotos das cavernas costeiras lindíssimas da região também ajudaram na decisão.

Centrinho de Bayfield no Wisconsin
Centrinho de Bayfield no Wisconsin

Reservamos o hotel e compramos o passeio 2 dias antes, numa dessas decisões de viagem bem pouco calculadas. A cidade estava lotada pelo 4 de julho, e o jeito foi ficar na vizinha Washburn (que também é uma graça). O problema: o passeio pelas Apostle Islands é muito longo. Levamos mais de uma hora e meia para chegar às Sea Caves, que são realmente lindas, mas não justificam meio dia “perdido” no barco. O narrador do passeio era ruim, e o sistema de som do barco não ajudava. Sabe quando todo mundo dorme? Multiplica isso por um barco cheio e temos um nome: passeio ruim!

Sea Caves nas Apostle Islands - Wisconsin
Sea Caves nas Apostle Islands

Bayfield foi uma ótima escolha, mas não recomendo o passeio de barco. O que recomendo, sim, é uma caminhada gostosa pelo centrinho de Bayfield e o passeio de balsa até Madeline Island (a única ilha habitada do arquipélago, que fica logo em frente).

Washburn

Por pura coincidência do destino, Washburn é a terra natal de uma moça que conheci durante uma mentoria online. Assim que soube que íamos dormir por lá, escrevi para ela. Ela não estava na cidade por causa do feriado, mas nos deu duas dicas boas: uma pizzaria maravilhosa, a Lyla’s Wood Fired (310 W Bayfield St, Washburn), e a trilha costeira que sai da frente do nosso hotel, o Washburn Inn, e margeia a costa rumo à marina municipal.

Eram 8h30 da noite, mas o sol se põe tarde no verão, e os primeiros raios dourados tomavam conta do horizonte quando coloquei meus pés na trilha, todinha florida. Se no inverno o tempo castiga duro as margens do Lago Superior, no verão tudo parece florir. Segui a dica da minha amiga Tracy à risca: “Procure uma saidinha do lado esquerdo da trilha e você chegará a uma das prainhas preferidas dos moradores locais.” Que tesouro!

Nadando no Lake Superior em Washburn
Nadando no Lake Superior em Washburn

Voltei no dia seguinte, bem cedinho, para um mergulho nessa prainha — e um até logo bem dado às águas do Mama Lake. Atrasei a saída da viagem da família todinha, mas não me arrependo. Até a próxima, Wisconsin!

MINNESOTA

Nossa passagem por Minnesota foi mais longa — 3 noites —, mas também concentrada em um único destino: Minneapolis. Já de bate pronto adianto, taí outro estado que merece mais tempo e pelo menos uma pernoite em Duluth, mas, como em toda viagem precisavamos fazer escolhas, em vez de simplesmente passar pelas duas principais cidades, optamos por conhecer uma delas direito.

Foi uma ótima escolha. Minneapolis entrega uma experiência eclética que tem som de Prince, um centro histórico super interessante e ótimos museus. Aqui deixo mais uma dica importante para o seu planejamento: os melhores museus da cidade fecham às segundas e terças e, como tinha jogo do Brasil pela Copa do Mundo no domingo, nós tivemos que deixá-los de fora do roteiro.

Chegando em Minneapolis
Chegando em Minneapolis

Minneapolis

Chegamos a Minneapolis com duas reservas feitas: a troca de óleo do carro, que, depois de 8.500 km rodados, estávamos no limite a sua primeira manutenção, e o ingresso para o Paisley Park, a antiga residência, estúdio e produtora de Prince, que eu fazia questão de conhecer. O Gu e as crianças pularam fora ao ver o preço dos ingressos: US$ 75 por pessoa. Para os fãs de plantão, adianto: vale a pena.

Caminhando pelo alto

Uma das primeiras coisas que aprendemos sobre Minneapolis foi o Skyway: aquele caminho de 3–4 quadras meio feio entre o nosso hotel e o Brit’s Pub (bar escolhido para assistir ao jogo do Brasil) podia ser encurtado graças ao sistema de passarelas fechadas que protege os moradores do inverno intenso e torna o centro caminhável mesmo nos meses mais frios do ano. São cerca de 15 quilômetros de passarelas que permitem circular entre hotéis, escritórios, lojas, restaurantes e outros edifícios do centro sem colocar os pés na rua.

Passarelas do Skyway em Minneapolis
Passarela do Skyway em Minneapolis

Mill District

Depois do jogo, aproveitamos para caminhar, dessa vez pelo lado de fora, rumo ao antigo Mill District, a região histórica e o pedacinho mais bonito da cidade. Foi ali que, antigamente, as águas das St. Anthony Falls movimentavam os moinhos que transformaram Minneapolis em um dos maiores centros produtores de farinha do mundo. Com o declínio da indústria ao longo do século XX, muitos dos antigos moinhos fecharam, e a região passou anos em desuso e abandono antes de um projeto de revitalização transformar antigos galpões e ruínas em museus, apartamentos, restaurantes, parques e espaços culturais.

Nossa caminhada mostrou esse encontro entre passado e presente de um jeito lindo: antigos galpões de tijolinhos e ruínas industriais dividem espaço com parques, prédios modernos e caminhos à beira das águas do rio Mississippi. Aproveitamos a caminhada para tirar fotos lindas da região.

Mill District em Minneapolis
Mill District em Minneapolis

Minnehaha Falls

O dia seguinte começou na Minnehaha Falls. Eu tava bem curiosa para conhecer essa cachoeira, cujo nome, na língua dos povos Dakota, significa “águas que riem”. Ela muda bastante de volume e de formato dependendo da estação do ano, e achei que, no auge do verão, poderia haver um pouco menos de água, mas ela estava cheia e borbulhante. Uma preciosidade.

Minnehaha Falls em Minneapolis
Minnehaha Falls em Minneapolis

Mall of America

Confesso que shopping center coberto e parque de diversões indoor dificilmente entrariam no meu roteiro de verão se não tivéssemos parte da manhã comprometida com a troca de óleo. Como o Mall of America fica no caminho, resolvemos surpreender a criançada com uma manhã no parque.

O Nickelodeon Universe é pequeno, mas super bem equipado, com montanhas-russas e atrações que enlouquecem pequenos aventureiros. E o melhor: estava bem vazio! Dá para pagar por atração ou comprar um ticket de dia inteiro.

Nickelodeon Universe
Skate que gira no Nickelodeon Universe – as crianças amaram o parque

As crianças se esbaldaram nas montanhas-russas. Caio repetiu 3x uma montanha-russa radical do Bob Esponja, com descida quase vertical. Tom preferiu o skate gigante que vai e vem rodopiando, e eu adorei o splash. Nos divertimos muito!

Também me impressionei com o tamanho e com a variedade de lojas e restaurantes do shopping, que, além do parque de diversões, tem uma Crayola Experience, um minigolfe, uma atração de paredes de escalada e várias lojas grandes, como Apple Store, Lego Store e M&M Store.

Almoçamos no Kura Sushi, um restaurante japonês de esteira que tem em várias cidades dos EUA e oferece um custo-benefício excelente (nossos filhos amam). De sobremesa, comemos o chocolate da Läderach (a “Nhá Benta” de chocolate meio amargo com laranja é surreal de deliciosa).

Jardim de esculturas

Ainda deu tempo de curtir o final da tarde passeando pelo Jardim de Esculturas de Minneapolis. É ali que fica a colher gigante que segura a cereja — obra dos artistas Claes Oldenburg e Coosje van Bruggen e um dos símbolos da cidade. Além dela, o jardim tem muitas plantas nativas floridas no verão e esculturas bacanas, como o enorme Galo Azul, da artista alemã Katharina Fritsch.

Spoonbridge and Cherry no Parque de Esculturas de Minneapolis
Spoonbridge and Cherry no Parque de Esculturas de Minneapolis

Paisley Park

Ingressos limitados e controle rígido na entrada — todos os celulares permanecem lacrados até a parte final do tour — marcam a chegada ao Paisley Park, o enorme complexo branco onde Prince trabalhou, gravou, ensaiou, fez shows e passou boa parte de seus últimos anos.

Paisley Park, a casa -estudio de Prince em Minneapolis
Paisley Park, a casa-estúdio de Prince de Prince nas aforas de Minneapolis

A visita é guiada e recheada de histórias sobre a carreira e o processo criativo de Prince, considerado um mito na região. Passamos pelos estúdios onde ele gravou parte de suas músicas, vimos figurinos e instrumentos usados em shows e conhecemos espaços onde aconteciam festas e apresentações para convidados. O tour termina no café do complexo (esse é o único pedaço aberto para quem não faz o tour), onde provei o cheesecake preferido do artista ao som do clássico Purple Rain.

Também visitamos o memorial criado pelos fãs que fica do lado externo do complexo e é emocionante.

Prince Memorial em Minneapolis
Prince Memorial em Minneapolis

DAKOTA DO SUL

Fazia muito tempo que o Badlands National Park estava na minha lista dos sonhos, e é claro que me emocionei ao ver as montanhas tomando forma e colorindo o visual. Além dele, nosso roteiro contou com 3 noites em Rapid City, uma das opções de base para visitar o Mt. Rushmore, o Custer State Park e outras atrações da região.

Wall

Havíamos saído de Minneapolis cedinho e dirigido 7 horas e meia, com parada para almoço em Sioux Falls. O plano era passar por dentro do parque rumo à cidade de Wall e deixar a visita pro dia seguinte. É claro que mudamos de ideia: aquelas montanhas coloridas lindas estavam pedindo para serem visitadas. Fizemos uma parada no centro de visitantes para retirar o livrinho de atividades dos Guardas Florestais Jr. (uma atividade gratuita disponível em todos os parques nacionais) e pegar dicas para nossa visita.

Montanhas coloridas no Badlands National Park
Montanhas coloridas na entrada do Badlands National Park

Nesse dia, fizemos as trilhas Window (ou Janela), de 400 m, e Door (ou Porta), de 1,2 km, ida e volta. Ambas ficam logo no comecinho do parque e têm vistas caprichadas para as montanhas coloridas. Depois disso, dirigimos rumo a Wall, fazendo algumas paradas em mirantes e para observar os animais silvestres, que ficam bem ativos no comecinho da noite. Vimos cabras-da-montanha, bisões, prairie dogs (cães-da-pradaria) e pronghorns (antilocapras-americanas).

Wall Drug

Antes de ir para o hotel, fizemos uma paradinha nesta atração clássica de beira de estrada da Dakota do Sul. O Wall Drug começou a ganhar fama em 1936, quando seus donos espalharam placas pela estrada oferecendo água gelada grátis aos viajantes que cruzavam aquela região quente e praticamente deserta. A estratégia funcionou tão bem que a pequena farmácia virou um complexo GIGANTE de lojas e restaurantes. Por lá, você encontra de donuts a botas de cowboy, vários cantinhos para fotografar e cafezinho por 5 centavos. Vai ser difícil sair de lá com só um cafezinho!

Badlands National Park

No dia seguinte, acordamos bem cedinho para driblar o sol do deserto e, principalmente, pegar a trilha mais badalada do parque, a The Notch, vazia. São 2,4 km de caminhada, com uma escada de troncos bem inclinada presa à encosta, trechos estreitos e uma subida divertida entre as rochas. O caminho termina no “Notch”, uma abertura no paredão com vistas para o White River Valley. A trilha não é recomendada para quem tem medo de altura e tem alguns trechos à beira de abismos. O Gu, que detesta altura e abismos, achou tranquilo, mas vá cedo para não pegar “congestionamento” e muita gente na escada de madeira.

Depois disso, demos uma volta caprichada pela Badlands Loop Road, parando em todos os mirantes que deixamos passar no dia anterior. O parque é maravilhoso e relativamente pequeno. Saímos perto do horário do almoço e ainda deu para dirigir até o Mt. Rushmore e conhecer o monumento nesse mesmo dia.

Mt. Rushmore

Ver os quatro presidentes se materializando na rocha ainda da estrada é tão impactante quanto a história da construção do monumento — cheia de controvérsias históricas e desafios. O Mount Rushmore ajudou a transformar as Black Hills em um dos grandes destinos turísticos dos Estados Unidos. O monumento recebe cerca de 2 milhões de turistas por ano e movimenta a economia das comunidades da região. Ali ao lado, há uma infinidade de atrações turísticas satélites: tirolesas, fazendinhas, zoológicos, museus e até parques aquáticos cobertos.

Mt. Rushmore na Dakota do Sul
Mt. Rushmore na Dakota do Sul

A visita me impressionou pela dimensão monumental dos quatro presidentes, pela história da construção — à base de dinamite e muitos cabos de aço — e também pelo espaço dado à história dos Lakota, com conversas guiadas por guardas-florestais e apresentações culturais de membros da comunidade. O monumento foi esculpido nas Black Hills, território sagrado para os Lakota, e carrega uma controvérsia que começa na própria ocupação dessas terras. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar a importância que o Mount Rushmore ganhou para a região e a indústria turística que cresceu ao seu redor.

Crazy Horse Memorial: uma polêmica ainda maior

A poucos quilômetros de Mount Rushmore, outra montanha está sendo esculpida, desta vez com a imagem de Crazy Horse, líder Oglala Lakota que lutou contra a expansão americana sobre as terras indígenas. A obra começou em 1948, pelas mãos do escultor Korczak Ziolkowski, e, quase 80 anos depois, continua longe de estar completa.

O projeto nasceu de um convite do líder Lakota Henry Standing Bear, mas é alvo de críticas de membros da própria comunidade Lakota. A contradição é enorme: para homenagear um líder indígena que resistiu à ocupação das Black Hills, uma montanha de uma região sagrada para esses povos está sendo explorada, explodida e esculpida. O terreno pertence hoje à fundação criada para tocar o projeto, e descendentes do escultor trabalham e recebem salários da organização.

Crazy Horse Memorial na Dakota do Sul
Crazy Horse Memorial na Dakota do Sul

A obra inacabada virou uma grande atração turística. A fundação cobra ingresso, recebe doações e mantém museus, loja, restaurante e outras estruturas para visitantes. O projeto não aceita financiamento federal ou estadual e é mantido por ingressos e doações privadas. Enquanto isso, a fundação acumula mais de US$ 140 milhões em patrimônio líquido e segue sem propor uma data para a conclusão da escultura.

Rapid City

Optamos pela hospedagem em Rapid City pela facilidade de ficarmos pertinho do aeroporto onde o Gu pegaria o voo de volta para a Califórnia e pela boa estrutura dos hotéis. Boa parte deles tem parque aquático coberto, o que é sempre uma boa pedida com crianças.

Adoramos o centrinho, decorado com estátuas dos presidentes americanos nas esquinas, e os restaurantes Delmonico Grill (especializado em carnes) e Sabatino’s (comida italiana com uma pequena área kids). Mas, em termos de logística e de aproveitamento das atrações da região, faz muito mais sentido ficar em Hill City ou Keystone.

Custer State Park

Nossa última parada na Dakota do Sul e um dos lugares mais bonitos da viagem foi o Custer State Park (entrada: US$ 25 por carro | chegue cedo), conhecido pela estrada cênica pontilhada por torres e agulhas de granito conhecidas como The Needles.

Sylvan Lake no Custer State Park
Sylvan Lake, uma das paradas mais lindas do Custer State Park

Passamos a manhã nadando e explorando a região de Sylvan Lake, que vale tanto pelo mergulho quanto pelas trilhas em meio aos rochedos gigantes, e, à tarde, percorremos a estrada cênica. Comemorei meu aniversário curtindo as vistas ao lado da família completa, antes de iniciarmos a jornada de volta para casa.

A experiência e a segurança de dirigir mais de 50 horas sozinha com meus dois filhos

Foram 33 horas de estrada para chegar a Chicago e 23 para retornar à Bay Area, além de todas as horas que o Gu e eu revezamos a direção. E sabe o que mais me orgulha? Ter conseguido dirigir essa enormidade de milhas sozinha e me sentir segura com meus dois filhos.

Estrada em Vernal - Utah
Estrada em Vernal – Utah

Não foi minha primeira viagem solo com os meninos, mas foi a primeira vez que dirigi tantas horas (e tantos dias seguidos) por estradas desconhecidas e estados que antes eram apenas pontinhos no mapa. Uma responsabilidade gigante e também uma oportunidade: viver muitas horas de qualidade só com eles.

Outra decisão acertada foi limitar o tempo de tela das crianças em uma hora por dia com isso tivemos muito tempo para conversar, ouvir audio-livros, e para eles, aprender a driblar o tédio. Sem telas, tive crianças muito mais presentes, opinando nas paradas e vendo as transformações de paisagens. A viagem nos aproximou, nunca me senti tão próxima dos meus filhos e cada dia mais curto a companhia e as pessoas engraçadas e interessantes que eles estão se tornando.

Passeio de barco no Pictured Rocks National Monument
Passeio de barco no Pictured Rocks National Monument

Vamos falar das paisagens?

É muito louco como os Estados Unidos dos clichês (compras, outlets, parques de diversões e o agito de cidades como Nova York ou Miami Beach) se desmoronam com uma boa viagem de carro pelo país. Vou começar pelas paisagens superdiferentes e tesouros naturais: é impressionante como duzentos quilômetros transformam a montanha com picos nevados em deserto, ranchos em parques nacionais, cidades em campo.

Depois vêm os americanos, que em geral são muito orgulhosos de seus estados. Os Michiganders, por exemplo, exaltam a beleza dos lagos e o fato de o mundo ainda não ter descoberto suas joias (eles estão certos); os chicagoenses são orgulhosos da cena gastronômica deliciosa e, se você perguntar para qualquer um deles, eles vão afirmar sem dó: “Chicago é muito mais bonita e muito mais limpa que Nova York”. Em Minnesota, nos impressionamos com a conexão musical e com o legado de Prince. Basta puxar conversa para encontrar alguém que já acabou a noite numa das festas exclusivas, com música tocada por ele no palco de sua casa (que hoje funciona como café). Em Thermopolis, ficamos encantados com as histórias contadas pelos arqueólogos que nos guiaram em nosso tour. Enquanto muita gente sonha em descobrir um osso, eles têm a sorte de trabalhar em um sítio arqueológico onde toda semana sai algo novo.

Viagem de carro pelos EUA
Selfie em um dos dias de viagem

Os Estados Unidos têm muito mais cores, texturas e sabores que o mundo conhece. Foi um privilégio celebrar os 250 anos na estrada, descobrindo pedacinhos maravilhosos do país que chamamos de lar.

mari vidigal
mari vidigal
Mari é editora do Ideias na Mala há 14 anos e mora na Califórnia. Já visitou dezenas de países e explorou boa parte dos Estados Unidos com seus filhos Tom e Caio. Sua paixão? Viajar com o motorhome Rocky e colecionar Springs na Flórida. Mari é conhecida pelos seus roteiros super completos dos principais destinos da Europa (sim! Tem roteiro de Paris, Madri, Londres, Portugal e Amsterdam) e pelo conteúdo mais completo da Califórnia, Flórida e Las Vegas entre os sites de viagem do Brasil. Em 2021 recebeu o prêmio IPW Travel Awards, um dos maiores prêmios de jornalismo de viagem, e em 2024 foi finalista do prêmio Europa de Comunicação.

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