Índia: o primeiro trem noturno a gente nunca esquece

Saiba como é viajar de trem noturno na Índia. Um relato bem especial – e um pouco pessoal – da minha primeira jornada de Sleeper Train.

Depois de 2 dias agitados em Nova Delhi (com direito a um pouco de choque cultural e muitos aprendizados), chegou a hora de conhecermos a Índia de verdade, estava oficialmente inaugurado nosso tour de 20 dias pelo Rajastão e arredores e pra começar, nada como uma viagenzinha de trem noturno do tipo “Sleeper train” e na terceira classe (Medooooo). Nosso trem sairia de Delhi por volta das 22:00 – e com um pouco de sorte e sem muitos atrasos, chegaríamos em Bikaner as 6:30 da manhã seguinte.

Estávamos no finalzinho de janeiro e a noite estava mais fria do que eu gostaria, vesti todas as minhas roupas quentes e me preparei psicologicamente para uma noite mal dormida repleta de companheiros de vagão barulhentos. Levei um “kit de emergência” com papel higiênico , álcool gel (dois musts na Índia), lencinhos umedecidos, comidinhas, tampão de ouvido e tapa olhos. Como era nossa primeira viagem de trem em grupo, o guia fez questão que chegássemos na estação uns 40 minutos antes do planejado, assim teríamos tempo de sobra para descobrir a plataforma do trem, andar até lá e esperar a chegada do trem. E realmente, tempo não faltou, mas congelamos na espera.

Trem noturno na Índia
Esperando a chegada do trem em Delhi

Falando em espera, as estações de trem da Índia, apesar de um pouco confusas, são lugares excelentes para observar pessoas de diferentes classes sociais e grupos étnicos, roupas coloridas, turbantes e uma variedade de padrões comportamentais pra lá de interessantes. Isso sem falar nas bagagens e pacotes gigantes!

A estação de Delhi, por exemplo é um caos “semi-organizado” que meus dois dias de Índia custavam em acreditar, uma máquina de raio X que muitos indianos não respeitam, e muita gente se empurrando para lá e para cá e os tipos mais estranhos de pessoas que já vi. E claro, num grupo de 10 gringos repleto de mulheres loiras, éramos o centro das atenções e éramos pra lá de observados (para não dizer encarados). Uma experiência no mínimo interessante.

Veja também: Índia em dez experiências caóticas porém divertidas

Já na plataforma, nosso guia conferiu nossos lugares no trem (reparem que eu virei “Arina”), e indicou onde cada um de nós ficaria. Eu e a Fabi ficamos numa cama embaixo da outra, e por sorte, estávamos no corredor onde só haviam duas camas e não três. Assim escapamos de um eventual estranho pisando na nossa cama para subir no beliche (ou pisar na cama de alguém para subir).

Trem noturno na Índia
Lista dos passageiros

Como é viajar de Sleeper train na terceira classe?

Viajar na terceira classe era meu maior medo, com tantas histórias bizarras da Índia que a gente escuta por aí, eu tinha um medo danado de ir parar num vagão repleto de homens sozinha e ser encarada a noite toda. Esse foi um dos motivos que me levou a optar por um tour: ter um guia indiano disponível o tempo todo para me ajudar em eventuais perrengues. O trem, por incrível que pareça foi bem mais simples e mais divertido do que eu imaginava. Óbvio que uma pitada de bom humor ajuda bastante e se você puder investir num bilhete de segunda classe, a diferença é brutal e eu recomendo!

Trem noturno na Índia
Fabi e nosso guia Abrai batendo papo no nosso beliche.
Trem noturno na Índia
Fabi e eu posando pra foto
Trem noturno na Índia
Nessa foto feiosa dá para ver bem como as cabines do trem são separadas por pequenas portas. 6 camas de um lado (divididas em 2 tri-liches) e 2 do outro (um beliche)

 

Mas qual a diferença entre a segunda e a terceira classe?

Conforto e quantidade de beliches por cabine. Na terceira classe as cabines são completamente abertas e comportam 8 beliches (6 de um lado – fileiras de três por “parede” – e duas, uma em cima da outra, na lateral. Na segunda classe as cabines são menores e tem apenas 4 beliches. As beliches da segunda classe também são MUITO mais limpas e confortáveis que as da terceira classe.

A primeira viagem: de Delhi a Bikaner

De volta a primeira viagem, logo que entramos no trem trancamos nossas mochilas na estrutura do beliche (um cadeado desses cumpridos é uma mão na roda para essa viagem) e começamos a nos preparar para a noite de sono. Recebemos um kit em envelope de papelão com lençol e fronha (surpreendente limpo para os padrões locais) e um cobertor desses BEM duros e bem suados (que já estava dobrado sobre a cama). Sem saber quando aquilo havia sido lavado pela última vez, decidi que o cobertor ficaria o mais longe possível do meu rosto.

Trem noturno na Índia
Envelope com lençol e fronha

Enquanto isso do outro lado do nosso vagão uma familia de pai, mãe e crianças fofas também começou a se preparar para a noite de sono.

Trem noturno na Índia
Nossos companheiros de trem em suas camas
Trem noturno na Índia
Crianças comportadinhas enquanto os pais arrumavam as coisas.

Adoramos estar num vagão mais familiar, mas ainda assim não escapamos dos olhares pouco delicados de dois Indianos sem noção que estavam no vagão ao lado. A Fabi ficou com o beliche de cima e eu fiquei com o beliche de baixo, assim ela ficava muito mais sucessível as olhadas que eu que estava escondidinha no meu canto. Uns 20 minutos depois quando o nosso guia passou para checar se estava tudo bem, a Fabi reclamou que um dos caras não parava de olhar e que aquilo a deixava insegura. O guia respondeu na lata: infelizmente indiano encara mesmo, você é diferente e o cara quer te olhar. Mas nós somos um povo MUITO direto e eu vou pedir para ele parar de te olhar. Com um tom ríspido e uma velocidade tremenda o guia pediu para os caras pararem de encarar a Fabi. Melhorou um pouco, mas não resolveu completamente. Por sorte logo as luzes se apagaram e o cara roncou sonoramente.

Temperatura do trem e odores ambientes

Outro receio que eu tinha era viajar em um vagão completamente fedido, e por sorte isso não aconteceu. Para evitar cheiros fortes os trens viajam com algumas aberturas na janela, o resultado é ótimo para os narizes, mas o frio é de lascar. Na dúvida, leve um bom casaco!

E o banheiro?

Adoraria dizer que prendi bem a minha bexiga e aguentei 10 horas sem fazer xixi (o trem atrasou quase duas horas para chegar). Infelizmente não foi o caso e acabei usando o banheiro do trem, e isso foi sem dúvida uma das partes mais bizarras e mais mal cheirosas da experiência. O Alcool gel em quantidades extremas foi um super companheiro para que eu conseguisse dormir bem depois de fazer xixi. Quer uma dica? Respire fundo antes de entrar no banheiro e tente prender a respiração enquanto estiver lá dentro, assim você evita respirar aquele cheirinho bizarro de banheiro químico de carnaval. UFFF! (E sim, o banheiro da segunda classe é BEM melhor que o da terceira!)

E deu pra dormir?

O beliche é muito mais duro e estreito do que eu gostaria, os roncos da cabine ao lado tinham uma potência sonora superior do que a habilidade de tapar sons do meu tampão de ouvido, mas ainda assim consegui dormir mais e melhor do que eu imaginava. Acordei no comecinho do dia com a notícia que nosso trem chegaria com duas horas de atraso e com as crianças da família ao lado brincando felizes da vida.

Os companheiros de vagão mais fofos do planeta

Falando em família, foi uma experiência muito diferente e muito divertida dividir esse finalzinho de viagem com eles. A mãe nos contou que eles estavam viajando para Bikaner para um casamento, e nos mostrou uma das hennas mais lindas e mais completas que vimos na viagem. Olha seu que lindo…

Trem noturno na Índia
Tattoo de henna para um casamento
Trem noturno na Índia
E não é que ficamos amigos?! 🙂 – Eu me divertindo com a criançada.

Uma coisa que para mim é muito difícil – e que tive exercitar bastante ao longo da viagem – é a noção de som e o respeito ao espaço alheio – conceitos quase inexistentes na sociedade indiana. As pessoas escutam música alto no telefone – o que eu, pessoalmente, acho HIPER desrespeitoso. Dão mini games altos para as crianças brincarem e praticamente desconhecem o uso do fone de ouvido. Eu que costumo ter uma tolerância baixíssima para ruídos alheios (Sabe aquela pessoa que pede pra galera colocar fone de ouvido no aeroporto ou abaixar o filminho da criança? Eu! ) tive que fazer um esforço extremo e muita meditação para entrar na onda, ao invés de pirar com a loucura da Índia. Assim quando a família do nosso vagão colocou música para as crianças dançarem, tratei de entrar na brincadeira e até filmei. Olha só que gracinha! (Pena que filmei pouco, foi uma das cenas mais fofas da viagem e uma das cenas que mais tenho saudades!)

Chegada em Bikaner

Pouco tempo depois, nosso trem chegou em Bikaner. Minha primeira experiência num trem noturno na Índia foi menos traumática do que eu imaginava e muito mais divertida do que eu esperava. Viajar de trem noturno na Índia é uma experiência, única, diferente e que apesar dos perrengues merece ser vivida!

Trem noturno na Índia
Chegada em Bikaner, sente só a Neblina.
Trem noturno na Índia
E para descer do trem, foi aquela bagunça!
Trem noturno na Índia
Estação de trem em Bikaner

Nos despedimos da família de Indianos e partimos para a próxima aventura da viagem: uma excursão de camelo + acampamento no deserto indiano! No próximo post, dividirei com vocês todos os detalhes dessa experiência. Não perca!

E aí, pronto para encarar um trem noturno na Índia?

Alguém aí já viajou para a Índia e quer deixar umas dicas?

E se você tiver perguntas, deixe um comentário! 🙂

Veja também:

Outras cidades da Índia

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Comentários (4)

Ótimo seu post. Consegui várias informações que contribuirão para minha agora em Janeiro de 2020 principalmente a questão do frio que eu não esperava e o barulho infernal nos trens. Parabéns!

Obrigada Paulo

Estou adorando demais seus posts. E claro, dando muitas risadas rs. Embarco para Índia em outubro.
Como vocês compraram as passagens? Na hora ou pela internet? Obrigado..

Oi Vitor,
Como fiz este pedaço com um tour, as passagens vieram incluídas no “pacote”
Beijos

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